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há mar em mim

A Adelaide

Adelaide deixa-se cair sobre a cama, exausta, ainda com os sapatos de salto calçados, que hoje parecem ser feitos de chumbo. O seu minúsculo T1 está em absoluto silêncio, não se ouvem as correrias dos miúdos que vivem no andar de cima, nem as discussões conjugais que lhe chegam, todos os dias, vindas do 2.º esquerdo. 

Fecha os olhos e tenta recuperar as forças. Quase que adormece, mas subitamente põe-se de pé. Quebrou, por momentos, a sua própria regra: não se aproximar da sua cama com roupas vindas da rua, sobretudo se chega do trabalho. 

Agora terá de limpar todo o quarto e mudar os lençóis, claro está. Amaldiçoou-se por ter sido descuidada, mas conhece-se suficientemente bem para saber que se não proceder àquela limpeza não conseguirá dormir.

"Como pode ser irónica a vida..." - pensa, enquanto vai puxando a colcha e depois os lençóis.

Adelaide mete mãos à obra, sem vontade, mas com determinação. Não tarda o seu T1 estará a brilhar.

Não tem orgulho no que faz para ganhar a vida, por isso não deixa que as impurezas do exterior contaminem o seu espaço. Razão pela qual estabeleceu regras para si própria. Sempre que chega a casa troca de roupa, mas não sem antes tomar um banho demorado, esfregando todas as partes do seu corpo, como se estivesse a proceder a uma desinfestação. 

Já deixou de se martirizar pelo que faz. Aprendeu a aceitar o seu destino. Mas ainda lhe custa. Todos os dias lhe custa, ainda que o seu rosto já não o deixe transparecer. 

Agarra-se aos seus sonhos. À ideia de um dia poder voltar aos estudos, formar-se e começar do zero. Tem 23 anos e começou a trabalhar aos 16. Fugiu da casa onde era maltratada todos os dias, pelo padrasto, sem que a mãe fizesse qualquer esforço para o controlar. Julga que nunca a terão procurado, facto que, ainda que lhe tenha doído ao início, se revelou um alívio. 

Viveu nas ruas. Mendigou algum tempo e sentiu-se a pior pessoa do mundo, até que um dia a Dona Ritinha a encontrou. Ofereceu-lhe sopa quente e uma cama, algumas roupas novas e conhecimentos sobre como deveria aproveitar melhor o seu corpo.

Na noite seguinte começou a trabalhar. O seu primeiro cliente foi um sexagenário endinheirado, que cheirava a vinho e que tinha um dente de ouro. 

Adelaide não se recorda do nome dele, mas ainda hoje tem pesadelos com aquele homem. Depois de se ter entregue a ele, de se deixar usar por duas vezes, num estado de semiconsciência, ele deixou-a na mesma cama velha onde Ritinha a tinha mandado "tratá-lo com carinho, pois era um cliente habitual" e desapareceu. Ela ficou a sentir-se suja, pegajosa e malcheirosa. Chorou toda a noite e compreendeu, naquele momento, o significado da palavra solidão. 

A partir daí soube que estava completamente por sua conta e risco. Que tinha de cuidar de si, já que mais ninguém o faria. Continuou a vender o corpo porque ganhava um bom dinheiro, mas nunca deixou de lhe custar, simplesmente aprendeu a viver com isso. Foi traçando pequenos planos para si. Trabalhando para atingir pequenas metas. 

Conseguiu sair da casa da Dona Ritinha, que lhe ficava com 75% do que ganhava. Dividiu um quarto com uma colega de profissão durante algum tempo, depois conseguiu ter um quarto só para si e hoje vive no seu T1, que mantém impecavelmente limpo.

Sonha cada vez mais e melhor para si. Apesar de se sentir cada vez mais cansada. 

(Imagem aqui)

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