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há mar em mim

A Luana

Luana tem olhos pretos e rasgados, grandes e, às vezes, um pouco assustados. Deve o nome à lua, claro está. A mãe diz-lhe que nasceram ao mesmo tempo, mas Luana não gosta da noite, teve medo do escuro até aos 7 anos.

 

Agora tem 17 anos e não gosta muito de sair de casa. Arrasta-se até à escola, apesar de gostar das aulas. Não gosta é do caminho de 2 km que tem de percorrer duas vezes ao dia. Também não gosta da disciplina de educação física, pois implica que se dispa em frente das colegas de turma, todas elas barbies perfeitas, altas, loiras e populares.

 

Luana não gosta muito de pessoas, se tivesse de escolher preferia viver somente rodeada de gatos. Gatos e livros eram tudo o que ela precisava para ser feliz. Bom... E esporadicamente uma visita da mãe.

 

Temia o desconhecido, apesar de possuir um fascínio pelo universo e pelo interior do corpo humano. Nunca pensava em rapazes, nunca se interessou por nenhum, julgava-os a todos pouco inteligentes e acreditava que quanto mais corriam atrás de uma bola de futebol mais estupidificados ficariam.

 

Às vezes via-se ao espelho e achava-se velha e esse reflexo nunca a incomodava, queria envelhecer rapidamente, saltava aqueles anos cheios de vitalidade, que toda a gente dizia que seriam os melhores de toda a sua vida. Luana duvidava muito dessas afirmações e as doenças que surgiam com a idade não a assustavam, achava, até, os óculos um acessório bastante charmoso, mas infelizmente ainda não necessitava deles, via perfeitamente.

 

Gostava de fazer ponto de cruz, aprendera com a avó materna aos 9 anos, naquele maravilhoso verão em que teve varicela e ninguém a chateou para sair de casa.

 

À beira dos 18 anos Luana entrará na universidade, em Medicina, incentivada pelo seu professor de Biologia, que desde o 10.º ano lhe dizia que deveria ser esse o seu caminho.

A rapariga não contrariou o professor, tinha notas para entrar em Medicina e gostava da ideia de fazer cirurgias ou descobrir a cura para uma doença rara, só temia vir a tornar-se uma médica de família, daquelas que lidam com mais de 20 doentes num dia. Não, isso Luana não aguentaria, era demasiado contacto humano.

(Imagem aqui)

Um dia destes, a Luana desajeitada, como a mãe lhe chamava, concluirá o curso com distinção, mas na tarde em que receber o seu diploma eclipsará para sempre.

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