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há mar em mim

A Mafalda

23h. Todos os dias a esta hora a Mafalda arrasta-se até à cama, depois de oito horas de trabalho, de duas horas perdidas no trânsito infernal da capital, da ida ao supermercado, da correria para chegar a horas ao portão da escola dos filhos, de ajudar a fazer os trabalhos de casa enquanto cozinha o jantar, das discussões à hora do banho, de saber como correu o dia no escritório ao marido, de arrumar a cozinha e preparar marmitas, de um banho relaxante e um beijo de boas noites aos miúdos.

Todos os dias a Mafalda chega à cama a sentir-se exausta, insegura com o seu corpo e com pouco apetite sexual. Lê uma página do livro que tem na mesa de cabeceira e adormece a pensar no que tem para fazer no dia seguinte, vencida pelo cansaço.

 

Hoje o relógio já marca 00:30h e a Mafalda ainda não dorme. Sente um nó no peito e um tremor a percorrer-lhe o corpo. Francisco dorme ao seu lado. Nem em sonhos deve desconfiar o que Mafalda está a sentir. Se ao menos ela pudesse apagar a tarde de hoje da sua memória...

 

Um beijo, foi só um estupido beijo nos lábios. Que importância tem isso?! O Rodrigo é que é um atrevido, não sabe aceitar um não como resposta e ela há semanas que o evita. Mas hoje apanhou-a desprevenida à saída da casa de banho. Agarrou-a pela cintura com força suficiente para ela sentir que não podia escapar-lhe, mesmo que quisesses. E beijou-a. Um beijo simples, adolescente até, mas que fez os joelhos de Mafalda tremerem.

 

"As coisas só têm a importância que lhes damos", repetia Mafalda para si própria. E ela não tencionava dar importância ao que acontecera. Rodrigo deveria ser um mulherengo, ainda que nunca o tenha visto com nenhuma mulher. Tinha os músculos suficientemente definidos e os olhos de um tom de verde que ela nunca vira antes, era seu colega de trabalho e desde que o mudaram para o seu departamento, já lá vão seis meses, olhava-a intensamente e sempre que ela falava fitava-a com toda a atenção do mundo.

 

Mas ela era casada. Tinha dois filhos e um marido que lhe dava segurança. Nem pensar que abdicaria do que tinha por uma aventura... E perdida nestes pensamentos adormeceu.

 

No dia seguinte, quando acordou, Francisco ainda estava, estranhamente, deitado ao seu lado. Ele que acordava naturalmente, todos os dias, às 06:00h, meia hora antes da hora do despertador de Mafalda tocar, continuava por ali, de olhos abertos fixos no teto. Quando Mafalda desligou  o despertador e antes que tivesse tempo de lhe perguntar o que se passava, ele disparou um: "Temos de falar...".

 

(Imagem aqui)

 

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