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há mar em mim

A Mafalda (II)

"Temos de falar...".

"Temos de falar...". "Temos de falar..."...as palavras ecoaram na cabeça de Mafalda, se lhe perguntassem ela diria que passaram 10 anos, naquele minuto de silêncio insuportável que se instalou no quarto. Ela tentava acordar, respirar, raciocinar... Desculpar-se? Estava completamente aturdida e dentro de meia hora era hora de ir acordar os miúdos. Os miúdos. Mafalda sentiu uma compressão no peito.

 

- Mafalda... - chamou-a ele na sua voz mais grave, mas estranhamente sumida, tentando captar-lhe a atenção.

- Espera. Deixa-me explicar... - tartamudeou ela, enquanto pensava se seria possível o marido ter descoberto o que acontecera na tarde anterior.

Ele não a ouviu. Estava estático, rígido e parecia que encolhera.

- Vou fazer quimioterapia. - disparou ele, não aguentando mais guardar aquela verdade horrível para si.

Mafalda sentiu uma tontura. Estaria a sonhar? Seria um pesadelo? O que estava Francisco a dizer? A sua cara estava completamente inexpressiva, parecia um fantasma. E ele prosseguiu:

- Às 9h. Tenho de estar no IPO às 9h. Tenho cancro do estômago... - gaguejou um pouco, mas continuou, sempre com os olhos fixos no teto, sentindo-se a esvaziar:

- Diagnosticado há dois dias atrás. O fígado e os pulmões também já estão apanhados.

Mafalda levantou-se num salto. Olhou para Francisco. O quarto parecia girar.

- Não! - disse-lhe, enquanto levava a mão à boca para abafar o choro.

- Desculpa. Já te devia ter contado... Mas era só uma azia que não passava, marquei consulta com o Doutor Lobato...

 

Francisco parecia uma sombra de si, falava baixo, quase num sussurro, e tinha o terror estampado na cara. Não tinha coragem de fitar a mulher. A mulher que lhe dera dois filhos maravilhosos, que subira consigo ao altar e a quem jurara amor eterno. Um amor que tinha sempre tanta dificuldade em expressar. A mulher que saltara consigo de paraquedas e que o acompanhara na viagem mais louca da sua vida. Eram tão novos, então... Tão inocentes e sonhadores.

 

Ainda nem tinham 40 anos, estavam casados há 16 e os filhos tinham 4 e 6. Francisco queria dizer-lhe que ela era a mulher da sua vida, que não fazia mal que se sentisse atraída por Rodrigo, que se iria esforçar mais, surpreendê-la, acarinhá-la, ajudá-la nas tarefas da casa. Que ela e os filhos eram a sua prioridade, que no verão fariam o tal cruzeiro tantas vezes adiado por causa empresa...

E agora não fazia sentido dizer-lhe nada disto. Não lhe iria prometer coisas que não sabia se estaria aqui para cumprir.

 

Mafalda deixou-se cair de joelhos no chão. Nada daquilo lhe fazia sentido. Ela ontem beijara outro homem e hoje o marido estava a morrer?! Que absurdo era aquele?! Que castigo doentio lhe estavam a impor?!

 

- Francisco... - chamou-o baixinho, entre soluços e ele respirou fundo, levantou-se, sabia que teria de a fitar e quando o fizesse tudo aquilo seria real.

- Estou aqui. - disse-lhe, abraçando-a. - Ainda estou aqui. - e mergulhou num choro compulsivo.

 

Permaneceram assim mais algum tempo. O suficiente para Mafalda ganhar novas forças e assumir o comando. Sabia que a sua casa, a sua família precisariam dela mais do que em qualquer outro momento. Encaminhou Francisco para o banho, com palavras carinhosas. Preparou o pequeno almoço, despachou os miúdos e foi colocá-los na escola.

 

Às 08:30h estava de volta a casa, havia combinado com o marido acompanhá-lo ao tratamento e à hora marcada ele saiu ao seu encontro. Mafalda contemplou-o a caminhar na sua direção, não parecia doente, pelo contrário, sempre teve um porte atlético devido às recorrentes corridas que fazia. Sorriu-lhe, tentava esconder o medo, mas olhava-a com ternura, a mesma ternura com que a brindou há 16 anos atrás, em Machu Picchu, ao nascer do sol, durante a louca e saudosa lua de mel que fizeram pela América Latina.

 

Ela amava-o. Teve a certeza absoluta disso quando ele se sentou ao seu lado no carro, naquela triste e cinzenta manhã de fevereiro, e lhe sentiu o cheiro familiar. Ele colocou-lhe a mão na perna e Mafalda entendeu aquele gesto como se de um "amo-te" se tratasse.

 

O seu casamento não estava na melhor fase, mas havia amor e isso bastar-lhes-ia para o salvar. Sabia agora. Rodrigo parecia-lhe uma miragem, na próxima semana teria de o afastar de vez, meter os pontos nos "i", para poder dedicar totalmente a sua energia à recuperação da sua família e porque não queria alimentar-lhe falsas esperanças.

 

As crianças também iriam ficar mais carentes, certamente, por ver o pai a lutar pela vida e Mafalda queria ser a cola que segurasse todas aquelas peças. Juntos conseguiriam. Tinha a certeza.

 

Caramba, numa manhã crê que vivenciou 20 anos de experiências e emoções, todavia, a vida, estranhamente, fazia-lhe mais sentido agora.

(Imagem aqui)

 

 

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