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há mar em mim

A Margarida

Eram seis da manhã e era inverno. O despertador tocou alto e pontual. Margarida esticou o braço e desligou-o mecanicamente. Nunca lhe apetecia sair da cama, sobretudo no inverno. Mas hoje era um dia diferente e de um salto colocou-se em pé, arrastou-se energicamente para o duche, que tinha sempre a capacidade de a despertar, se bem que hoje ela não necessitava desse apoio suplementar. Como era contraditória a vida!

Na cozinha preparou uma deliciosas papas de aveia, pequeno-almoço que era habitual aos sábados de manhã e não às quintas-feiras, que era o presente dia da semana. Margarida estava animada, cantarolava sem reparar e sentia uma energia diferente a percorrer-lhe o corpo. 

Nunca imaginou que demitir-se e mandar tudo às urtigas a deixaria tão feliz. Ela que sempre fora uma trabalhadora dedicada e exemplar achou que a sua decisão a colocaria infeliz, pelo menos durante os dois primeiros dias. Mas ali estava ela, feliz da vida, com um sorriso de orelha a orelha. 

Era hora de empacotar. Tinha de colocar a sua vida em caixas. Não sabia bem por onde havia de começar, mas estava determinada em deixar grande parte do apartamento limpo ainda hoje. Mal podia esperar pela próxima segunda-feira, aí sim, a aventura iria mesmo começar. 

Margarida decidiu começar pelo escritório, afinal tinha deixado o seu emprego, que em tempos fora de sonho, portanto teria muitos papéis para rasgar e reciclar.

Passada uma hora deu de caras com uma caixa de cartão rígido, tamanho médio, cinzenta com pequenas florinhas amarelas. Margarida sentiu o seu coração amolecer, as pernas tremeram-lhe ligeiramente e um sorriso doce desenhou-se na sua cara, enquanto pegava na caixinha com todo o cuidado e amor. Pousou-a no tapete e, de joelhos, deu início a um regresso ao seu passado, aos seus tempos de menina adolescente e encontrou por lá tudo aquilo de que se lembrava e um pouco mais. Sentiu-se grata pelas pessoas que habitaram o seu passado, mesmo aquelas que já não via. Sabia que se havia tornado na adulta que era devido às vivências que guardou na sua caixa. Tantas memórias! Mas não as podia levar com ela para a sua nova vida, por isso ligou à sua melhor amiga. Ninguém melhor que ela para guardar aquela relíquia. Combinaram encontrar-se dentro de dois dias para um lanche demorado. Margarida sabia que ela não ia reagir bem à sua decisão, mas encolheu os ombros e bebericou mais um pouco do chá que estava pousado na sua secretária. 

Senti-se viva, genuinamente feliz e nada a poderia deter. Pensou em Enzo, o amor da sua vida. Italiano. Haviam-se conhecido uns meses antes, numa viagem de um mês que Margarida fez sozinha por Itália. Já não imaginava a sua vida sem ele e por isso arrumava-a agora para se mudar para Florença. 

Margarida pensava nos seus planos quando o seu smartphone tocou. Eram 10:30h. Mais uma hora em Itália. Enzo. Sorriu.

E nada na sua vida a havia preparado para a dor que aquela chamada lhe causaria. 

 

(Imagem aqui

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