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há mar em mim

A Maria

A Maria não terá mais que quatorze anos, mas tem muita pressa em crescer. Sempre foi muito carinhosa. Sempre brincou com bonecas, até ter dez anos, em todo o lado. Não saía de casa sem, pelo menos, uma boneca em cada mão. Entre os dez e os doze passou a brincar menos, mas quando o fazia ainda adorava, apesar de desmentir quem quer que fosse que tivesse a ousadia de lhe dizer tal disparate.

A partir dos doze anos a Maria perdeu o sorriso de menina, fechou a sete chaves o carinho que oferecia despreocupadamente aos pais, até então, e passou a usá-lo só em dias especiais e dentro de quatro paredes, claro está.

A Maria tinha um desejo louco de crescer, de interessar-se muito por roupas e maquilhagens, como as suas amigas. Queria muito impressioná-las com as suas unhas coloridas e as sapatilhas de marca.

A Maria queria sempre mais qualquer coisa e esses desejos nunca estavam verdadeiramente satisfeitos, ela própria já não se reconhecia, mas nunca vacilava. Nunca diria à mãe que tem saudades dos tempos em que pintavam e cortavam juntas folhas de papel colorido que serviam para criar monstrinhos divertidos, feitos à medida da sua imaginação. Jamais admitiria ao pai que sentia muita falta das histórias que ele lhe inventava antes de adormecer.

A Maria andava mais triste, mais fechada e mais perdida, no entanto, repetia a si mesma que isso fazia parte do crescimento, que as suas amigas tratavam os pais com a mesma indiferença e que só assim, com atitudes de meninas crescidas, poderia impressionar o Pedro. Mal sabia a Maria que o Pedro só pensava em ser jogador de futebol e que o interesse pelas raparigas só despertaria nele dois anos mais tarde.

A Maria baixou as notas e conseguiu que os professores falassem dela mais do que nunca, mas pelos piores motivos.

A doce Maria deu lugar à distante Maria. Distante da família, que a cada dia parecia perder mais uma batalha, distante dos estudos, que sempre a interessaram, e distante das amigas, que à sua maneira estavam a passar pelas mesmas angustias.

Mas estas meninas, iguais a tantas Marias, querem crescer demasiado depressa, sedentas de alcançar algo que a sua maturidade ainda não é capaz de compreender a 100%. Estas meninas tropeçam e poucas têm uns pais como os da Maria, sempre presentes, sempre atentos, sempre unidos, para a ajudar a levantar.

 Imagem daqui.

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