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Há mar em mim

Este é um blog onde cabe um pouco de tudo. Imenso como o mar. Haverá opiniões, ideias, fotografias, textos rabiscados, será uma extensão de mim. Se chegou até aqui, detenha-se e sinta-se bem-vind@.

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Dona Clotilde

A Dona Clotilde não usa óculos ainda, apesar de já ver mal ao perto. Passa os dias à janela, rega as suas flores, que vivem naquela casa há tanto tempo quanto ela, e vê quem passa. Conhece todos os seus vizinhos, sabe dos amores e desamores, sabe dos pais que sofrem por o ninho ter ficado vazio e sabe dos filhos que voltaram da cidade grande porque não conseguiram realizar os seus ambiciosos sonhos. Também sabe que a rapariguinha que vive três porta abaixo da sua está grávida, apesar dos pais e ela o tentarem disfarçar.

A Dona Clotilde vive com o Xavier, o seu gato de 12 anos, que já não tem vontade de saltar de beiral em beiral e passa os dias deitado no tapete da sala.

A Dona Clotilde reformou-se há 10 anos e não sente saudades do tempo em que trabalhava nas finanças. Agora pode estar mais tempo à janela. Vai à farmácia todas as quartas-feiras e visita o seu médico de família uma vez por mês, mesmo que não tenha nenhuma queixa. Gosta dele como se fosse seu filho e já fez questão de lho dizer.

A Dona Clotilde nunca casou, nunca engravidou e essa é a grande mágoa da sua vida, apesar de o esconder das suas vizinhas, da mesma idade que a sua. Faz questão de lhes transmitir a ideia de que o Xavier e aquela casa virada a sul são tudo aquilo que sempre precisou.

A Dona Clotilde, que sempre foi feia e sempre pareceu mais velha do que era na realidade, teve dois namoricos quando estava na flor da idade, mas apenas lhe serviram para não aparecer sozinha nos bailes da aldeia. Nunca tirou a carta e só sai da sua casa na última quinzena de julho para ir visitar a irmã e os sobrinhos. Esta visita anual basta-lhe.

Quando fez 50 anos achou que merecia uma prenda, comprou um bilhete de avião para ela e para a sua irmã, para que pudesse ir ver, ao vivo e a cores, a cidade que todos diziam ser do amor e onde estava a tal torre de ferro. Foram. A irmã veio muito feliz, adorou voltar àquela cidade onde tinha estado há uns 15 anos atrás com a sua família, mas a Dona Clotilde voltou com uma mágoa. Disse à irmã que a viagem tinha sido um desperdício de dinheiro e que nunca mais voltaria a fazer uma loucura daquelas.

A Dona Clotilde foi a Paris e compreendeu que perdeu o mundo. Aos 50 anos achou que era tarde demais para si e fechou-se ainda mais, abrindo só a janela da sua casa para tomar conta das ocorrências da sua rua. Dizia a si mesma que isso lhe bastava e que a torre Eiffel nem era assim tão bonita como a pintavam.

 (Imagem aqui)

 

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