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há mar em mim

O Bernardo

Sou o Bernardo e sinto-me desconfortável quando olham diretamente para mim. Nunca pensei ter de recorrer a um psicólogo, mas aqui estou. Bastante cético quanto ao bem que isto me possa fazer... Na verdade, venho mais pelas pessoas que me pediram para o fazer do que por mim. 

 

Olho o relógio. São 16:30. A esta hora deveria estar a preparar-me para deixar o escritório e ir buscar o meu filho à escola. Baixo a cabeça e um vazio enorme apodera-se de mim. As mãos tremem-me. Tenho 43 anos e as mãos tremem-me e eu não compreendo nada do que se passa à minha volta.

 

Sei que a esta hora a minha mulher está em casa. Provavelmente a sentir-se perdida, como eu, mas não o posso garantir. Há meses que praticamente não falamos. Somos dois fantasmas presos dentro da nossa própria casa. Uma moradia. Virada a sul, com três quartos, grandes janelas e uma piscina. Tal como ela sempre quis.

 

Tudo me parece distante agora. Comprámos aquela casa há 10 anos, quando fui promovido, dois anos antes do José nascer e, no entanto, aquela casa e os sonhos de então parecem ter pertencido a outras pessoas que não nós. 

 

Envelheci imenso nos últimos meses. A Paula também. Deixei o ginásio, perdi peso, clientes e a vontade de viver. Ainda gosto da Paula, mas não sabemos como nos encarar. Não sabemos como conviver. Há dúvidas e rancor no ar. Há meses que durmo no sofá do escritório, não que ela me tenha pedido, mas foi algo que senti que devia fazer. 

 

A dor consome-nos. Os dias passam e parecem sempre iguais, ainda que uns dias fiquemos deitados até à hora de almoço. Não por sono. Não por preguiça. Simplesmente porque não sabemos o que fazer quando colocarmos os pés no chão. 

 

Sei que a Paula deverá estar a viver sentimentos idênticos aos meus. Sei que também ela se consome, mas não encontramos forma de nos olhar e tentar compreender. Não há nada que possamos compreender neste enorme absurdo que se tornou a nossa vida. 

 

Tenho 43 anos e tive um filho. Houve um tempo em que tive um filho. José. 8 anos. Terá para sempre oito anos o meu filho. Passaram-se meses desde que o abracei pela última vez. Era o miúdo mais bem disposto que conheci até hoje. Adorava animais, o Benfica e o espaço, sabia mais que eu sobre planetas e constelações. Sonhava muito, mas reparava no mundo à sua volta. 

 

Um dia acordei pai e a Paula acordou mãe. Uma manhã igual a tantas outras. Fomos trabalhar e ele foi para a escola. Ao fim do dia eu e a Paula já não éramos pais. Éramos uma sombra do que fôramos. 

(Imagem aqui

E nada disto faz sentido. O mundo avança e não deveria avançar. Não sem ele. Não sem justiça. 

 

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