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há mar em mim

O dia em que fiz 18 anos

Era setembro. Eu tinha dezassete anos, quase dezoito, e muitos sonhos em banho-maria.

Aguardava-me o 12.º ano, pela segunda vez, devido a um exame de equivalência a frequência que não fiz, por erro da secretaria da escola. Chorei muito no dia em que soube que tinha de repetir o ano. Faltava-me uma disciplina! Uma só... Nunca tinha repetido um ano. Fui à direção da escola, por sugestão de uma antiga professora que viu o meu desespero. Não fui bem recebida, pelo contrário. Culpabilizaram-me, disseram-me coisas que não deveriam, fizeram-me sentir pequena e impotente, camuflando o erro da secretaria, ou seja, da escola. Resignei-me. 

Contei aos meus pais e também eles se resignaram. 

Foi um longo verão. Não saí do Alentejo. Sabia que quando voltasse à escola os meus amigos teriam ido às suas vidas. Cada um iria para a universidade que escolheu e eu ficava para trás. Era este o sentimento com que lidava. 

Decidi, nesse verão, que mesmo antes da escola começar iria ganhar o meu primeiro ordenado e disse aos meus pais que queria ir vindimar. Iria trabalhar para o patrão do meu avô. E assim foi.

O meu avô dizia que a vindima é dos trabalhos mais difíceis que o campo tem. E ele conhecia-os a todos, porque o campo foi sempre a sua vida. A foice, a enxada, o cesto. Semear, enxertar, vindimar, apanha da azeitona, do tomate... Ele fazia tudo. Ano após ano. Uma vida inteira.

Disse-me que não era fácil e que eu se calhar teria dificuldades. Os meus pais disseram-me o mesmo, mas não me desencorajaram. 

E eu fui. Fui de braço dado com a minha determinação e no primeiro dia pude logo constatar que o trabalho do campo era tudo aquilo que eles me tinha dito e um pouco mais. No Alentejo Interior, em inícios de setembro, as temperaturas ainda rondam os 40º C, as vinhas são baixas e a vindima consiste, para quem não sabe, em cortar cachos de uvas para um balde que, quando cheio, deve ser imediatamente despejado para voltar a encher. Apanha, corta, pousa. Apanha, corta, pousa. Apanha, corta, pousa. Despeja. Apanha, corta, pousa... Um dia inteiro disto. 

Ao fim de uma hora o corpo começa a doer. Ao fim de duas já não há posição que se aguente. Ao fim de três queremos fugir. E a partir daqui ligamos o piloto automático, não pensamos nas dores, nem no calor e deixamo-nos ir...

No fim da primeira semana de trabalho recebi o meu primeiro ordenado. Era dia 10 de setembro e eu fazia 18 anos. Senti-me crescida, orgulhosa e feliz. E apesar de ter trabalhado tanto como qualquer pessoa naqueles campos, por ser mulher recebi um pouco menos que os homens. Todas recebemos. Era assim. Ainda é assim. Não só no campo. 

Soube naquele dia o quanto custa ganhar dinheiro para pôr a comida na mesa.

Ontem alguém me disse que as mulheres não sabem o valor do dinheiro. E eu ri-me. Ri-me porque a pessoa que o disse não está a atravessar o melhor momento da sua vida e, como tal, não quis entrar numa discussão vã, com alguém que psicologicamente não está bem.

Por isso, sorri. E veio-me à memória a história do meu primeiro ordenado. 

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