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há mar em mim

O Renato

- Vai para a puta que te pariu!

A frase ecoa-lhe na cabeça, uma e outra vez, uma e outra vez, uma e outra vez... Até que as palavras percam o significado.

 

Renato tem 9 anos e ouviu a frase pela primeira vez. Foi-lhe dirigida a si, com toda a violência que as palavras podem conter, porque vinha distraído a contar as moedas que tinha na carteira e esbarrou, sem querer, num miúdo mais velho. Pediu desculpa, mas de nada lhe serviu. O outro olhou-o com desdém e usou o imperativo no seu tom mais agressivo ao mesmo tempo que concentrou toda a sua força nas mãos para empurrar Renato, que acabou por cair aparatosamente no chão.

 

Renato tinha vontade de contar à mãe, quando chegasse a casa, mas seria incapaz de lhe reproduzir o vocábulo usado e como não sabia o que havia de fazer para acalmar os sentimentos maus que se apoderavam dele, chorou. Chorou muito, escondido na casa-de-banho, onde ninguém o pudesse ver. Os seus pais eram, sem dúvida, as pessoas de quem mais gostava no mundo e sentiu uma tremenda injustiça por a mãe ser ofendida assim, despropositada, violenta e amargamente, em pleno recreio.

 

Após ter chorado as suas frustrações e inseguranças Renato traçou um plano: iria falar com a sua professora sobre o que lhe tinha acontecido. Os pais sempre o haviam ensinado a agir perante alguma injustiça e era isso mesmo que ele tinha decidido fazer. Não iria denunciar o seu colega, não o queria punir, mas sim instruir. Assim, Renato, aos 9 anos, foi o impulsionador, na sua escola, de uma campanha bem sucedida contra o bullying e a violência nos recreios.

 

Não sabia o Renato que aquele episódio iria marcar a sua vida para sempre, já que o sentido de justiça nunca mais o abandonou e ele tornou-se no melhor juiz que poderia ser.

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