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Há mar em mim

Este é um blog onde cabe um pouco de tudo. Imenso como o mar. Haverá opiniões, ideias, fotografias, textos rabiscados, será uma extensão de mim. Se chegou até aqui, detenha-se e sinta-se bem-vind@.

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O Sr. Pereira

O Sr. Pereira já passa dos 80. Sente que teve uma vida preenchida, apesar da solidão que agora habita os seus dias. Dividiu a sua vida, durante 48 anos, com o amor da sua vida, até que um ataque cardíaco fulminante lhe roubou a única mulher que amou, numa manhã gélida de janeiro. Esse acontecimento fatídico fará amanhã seis meses. Os seus filhos irão ligar-lhe, vão querer saber como está e tentar distraí-lo com as peripécias dos netos. São bons miúdos, interessados e o Sr. Pereira sabe que eles se preocupam verdadeiramente com ele. Mas a vida quis que eles fossem viver para longe. A rapariga no norte, o rapaz no sul do país.

O Sr. Pereira vive no Alentejo, onde viveu toda a vida. Gosta da calma daquela terra, do silêncio das manhãs e do rigor do tempo que se faz sentir. Não quer sair dali, não o fará, por mais que os filhos lhe digam que será o melhor para si. O Sr. Pereira não quer deixar a casa que tanto lhe custou a construir, a casa onde constituiu uma família feliz, a casa onde a sua esposa lhe deu um último beijo.

As suas manhãs são sempre iguais. O Sr. Pereira toma o pequeno almoço às 9h em ponto e às 9:30h vai até ao largo, compra o jornal e vai lê-lo no banco do jardim. Gosta de saber como o mundo vai evoluindo, apesar de achar que nos dia de hoje tudo tem turbo. Também lê as páginas dedicadas ao Benfica, nunca foi de se meter em discussões de futebol, mas alegra-se com as vitórias do clube da Luz.

Os seus amigos chegam ao jardim por volta das 11h. Conversam sobre tudo e sobre nada e observam os jovens a ir, sempre apressados, não sabem bem para onde.

Agora é o Sr. Pereira que prepara as suas refeições, valem-lhe as memórias que ficaram dos tempos da tropa. A comida perdeu o sabor caseiro que tinha, exceto quando a sua filha o visita e lhe traz refeições para uma semana. Cozinha tão bem quanto a mãe, até nisso se parece com ela.

O Sr. Pereira é um homem feliz, ainda que saiba que já não lhe resta muito tempo. Quando chegar a sua hora estará pronto, por agora só quer garantir que os seus filhos também estarão e aguentar-se por cá tempo suficiente para ver a neta mais velha a subir ao altar, vestida de branco, com o vestido que ele próprio comprou para a mãe da pequena.

(Imagem aqui)

 

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