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há mar em mim

há mar em mim

Dona Clotilde

21.02.17 | C.S.

A Dona Clotilde não usa óculos ainda, apesar de já ver mal ao perto. Passa os dias à janela, rega as suas flores, que vivem naquela casa há tanto tempo quanto ela, e vê quem passa. Conhece todos os seus vizinhos, sabe dos amores e desamores, sabe dos pais que sofrem por o ninho ter ficado vazio e sabe dos filhos que voltaram da cidade grande porque não conseguiram realizar os seus ambiciosos sonhos. Também sabe que a rapariguinha que vive três porta abaixo da sua está grávida, apesar dos pais e ela o tentarem disfarçar.

A Dona Clotilde vive com o Xavier, o seu gato de 12 anos, que já não tem vontade de saltar de beiral em beiral e passa os dias deitado no tapete da sala.

A Dona Clotilde reformou-se há 10 anos e não sente saudades do tempo em que trabalhava nas finanças. Agora pode estar mais tempo à janela. Vai à farmácia todas as quartas-feiras e visita o seu médico de família uma vez por mês, mesmo que não tenha nenhuma queixa. Gosta dele como se fosse seu filho e já fez questão de lho dizer.

A Dona Clotilde nunca casou, nunca engravidou e essa é a grande mágoa da sua vida, apesar de o esconder das suas vizinhas, da mesma idade que a sua. Faz questão de lhes transmitir a ideia de que o Xavier e aquela casa virada a sul são tudo aquilo que sempre precisou.

A Dona Clotilde, que sempre foi feia e sempre pareceu mais velha do que era na realidade, teve dois namoricos quando estava na flor da idade, mas apenas lhe serviram para não aparecer sozinha nos bailes da aldeia. Nunca tirou a carta e só sai da sua casa na última quinzena de julho para ir visitar a irmã e os sobrinhos. Esta visita anual basta-lhe.

Quando fez 50 anos achou que merecia uma prenda, comprou um bilhete de avião para ela e para a sua irmã, para que pudesse ir ver, ao vivo e a cores, a cidade que todos diziam ser do amor e onde estava a tal torre de ferro. Foram. A irmã veio muito feliz, adorou voltar àquela cidade onde tinha estado há uns 15 anos atrás com a sua família, mas a Dona Clotilde voltou com uma mágoa. Disse à irmã que a viagem tinha sido um desperdício de dinheiro e que nunca mais voltaria a fazer uma loucura daquelas.

A Dona Clotilde foi a Paris e compreendeu que perdeu o mundo. Aos 50 anos achou que era tarde demais para si e fechou-se ainda mais, abrindo só a janela da sua casa para tomar conta das ocorrências da sua rua. Dizia a si mesma que isso lhe bastava e que a torre Eiffel nem era assim tão bonita como a pintavam.

 (Imagem aqui)

 

2. Coisinhas que me irritam

20.02.17 | C.S.

Uma coisa que me tira do sério?

Aquelas pessoas que vão calma e tranquilamente a circular na faixa mais à esquerda, fazendo com que quem deseje fazer uma ultrapassagem siga um de dois caminhos possíveis:

1. faz ultrapassagem pela direita, desrespeitando as regras do trânsito;

                                                       ou

2. passa o tempo a desejar que um raio de sabedoria e iluminação descarregue em cima do dito carrinho.

 

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Imagem aqui.

 

Fui ali visitar a minha cidade...

20.02.17 | C.S.

Este fim de semana que passou levou-me até à minha cidade. A que me viu nascer, crescer, cair, levantar, namorar, licenciar, partir e casar. A cidade onde me sinto em casa, por mais tempo que passe. Conheço-lhe as ruas e os recantos, sinto-a em mim, mesmo não estando.

Eu, que adoro sair, gosto sempre da sensação de voltar a casa. Por isso, ir a Évora é como ir a casa. Caminhar pelo seu centro histórico é um reavivar memórias.

Évora permitiu-me crescer com o conforto de uma cidade, mas vivenciando o que de melhor a vida rural tem para oferecer. Gosto muito do sítio onde vivo atualmente, não sei se algum dia sairei daqui, mas Évora será para sempre a minha cidade. O Alentejo corre-me, inevitavelmente, nas veias. Conheço-lhe a silhueta, o calor e o frio, as cores e os sabores.

 

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Há uma canção que a Tuna Académica da Universidade de Évora costuma interpretar muito bem e da qual sempre gostei muito, que fala, precisamente, sobre a saudade desta bela cidade:

 

«Eu não sei o que tenho em Évora
Que de Évora me estou lembrando
Quando chego ao rio Tejo
As ondas me vão levando

Abalei do Alentejo
Olhei para trás chorando
Alentejo da minh'alma
Tão longe me vais ficando (...)»

 

4. Coisas maravilhosas que o meu (pouco) dinheiro não pode pagar

19.02.17 | C.S.

Domingo é dia de partilhas no Há mar em mim, já sabem. E que coisas tão giras que eu hoje vos apresento aqui. Preparadas? Então, suspiremos juntas. 

 

Desejo n.º 1: Casaco Alexander Mcqueen

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 Desejo n.º 2: Vestido Pronoivas

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 Desejo n.º 3: Pulseira Dolce&Gabbana

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 Não viram as sugestões da semana passada? Não faz mal, espreitem aqui.

As memórias

18.02.17 | C.S.

Não sei como vocês são. Sei que há pessoas que não são minimamente apegadas aos objetos. Já eu, tenho de vos confessar que tenho coisas que guardei com muito carinho só porque me lembram momentos em que fui feliz, de alguma forma.

Mas a verdade é que não podemos guardar tudo, a menos que vivamos num palacete, por uma questão de espaço, chegam alturas em que temos de fazer uma limpeza geral.

Eu demoro a fazer estas limpezas, porque pego nos objetos, toco-lhes e deixo que me avivem as memórias. Sorrio. Penso em como a minha vida já foi preenchida. No que fiz, no que não passou de planeamento, no que ainda quero fazer.

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(Imagem aqui)

1. Coisinhas que me irritam

16.02.17 | C.S.

Vou estrear aqui no blog uma rubrica (como quem diz...) que vos vai dar a sensação de, por momentos, terem encarnado na vida de um psicólogo.

Não se assustem, suponho que não terei assunto semanal para alimentar esta rubrica. Facto que até abonará a favor da minha saúde mental se se vier a revelar verdadeiro. Assim espero...

Cá vai...

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Pessoas que dizem "Boas...". Porquê??? Porque fazem isto?! Custa alguma coisa dizer bom dia, boa tarde ou boa noite?

Eu tenho uma teoria, vejam lá se anda por aqui alguém que concorde comigo, é o seguinte: as pessoas que dizem "boas" fazer-no porque não têm conteúdo para manter uma conversa minimamente aceitável e ao dizerem "boas" sabem que deixam os seus interlocutores à beira de um ataque de nervos e, portanto, sem vontade de mais nada a não ser dizer mentalmente todos os palavrões que constam como tal na língua portuguesa.

Outro problema que as pessoas que dizem "boas" têm é que desenvolveram um excesso de confiança exacerbada devido ao facto de deixarem, num raio de 10km, qualquer pessoa com vontade de falecer. Logicamente que desejamos falecer devido ao reduzido vocabulário desta gente, no entanto, do ponto de vista deles o nosso estado de transe deve-se a toda a linguagem corporal que acompanha estes "boas", pois ele é piscadelas, é sorrisinhos exagerados, é mexidas no cabelo, é tudo aquilo que possa garantir que a sua presença não passa despercebida.

Haja paciência!

Cenas tristes do quotidiano

16.02.17 | C.S.

Todos os dias, para poder ir trabalhar, passo na mesma estrada. É considerada uma das piores e mais problemáticas do país (iupi!!!) e eu não tenho alternativa. Ou melhor, tenho, mas custa os olhos da cara. E eu prezo os meus olhos.

E todos os dias são mais de 100km para ir trabalhar. Ao preço a que estão os combustíveis todos compreenderão a minha dor. Mas enfim. Bola para a frente... Porque para a frente é que é o caminho e eu nunca posso chegar atrasada, não me perdoariam.

 

Nesta estrada movimentada e caótica existe um troço que costuma estar povoado, não só de carros, mas também de senhoras, entre três a quatro em menos de 1km.

Eu sou super distraída no que toca a alguns assuntos e só passada uma dúzia de vezes de fazer o bendito percurso é que comecei a ver que por ali haviam sempre senhoras. Achei, nos primeiros dias, que estariam à espera de alguém e depois achei que estavam a pedir boleia e depois fez-se luz, elas até têm cadeiras para esperarem sentadas e estão sempre de mini saias ou de mini vestidos. Mesmo quando o termómetro do meu carro marca -1ºC.

 

Já perceberam? Já perceberam o que fazem estas senhoras para ganhar a vida? Caramba, vocês são mesmo mais atentos que eu.

Mas agora, chegados a este ponto, estão vocês a pensar: "C.S., demoraste tanto tempo a perceber?". Sim, demorei, sou um bocado despistada, o que é que querem?!

E agora pensam: "Mas porque está ela a divagar neste assunto?!". Calma, explico já.

Porque num destes dias, lá ia eu no meu difícil percurso, quando reparei que por lá se encontrava um carro (familiar) "a fazer negócio" e tinha um daqueles autocolantes que dizem: "Bebé a bordo". E eu sustive a respiração. Abanei a cabeça para não pensar no assunto. Mas não consegui não pensar no bebé que normalmente anda naquele carro e que é agarrado e beijado por aquele senhor que estava interessado numa senhora que ganha a vida à beira da estrada a prostituir-se.

 

Não sei o que vocês acham, mas eu acho triste. Acho que todos estes protagonistas da vida real tem uma história triste, cheia de um nevoeiro denso, daqueles que demora dias e dias e dias a desaparecer.

 

A Maria

15.02.17 | C.S.

A Maria não terá mais que quatorze anos, mas tem muita pressa em crescer. Sempre foi muito carinhosa. Sempre brincou com bonecas, até ter dez anos, em todo o lado. Não saía de casa sem, pelo menos, uma boneca em cada mão. Entre os dez e os doze passou a brincar menos, mas quando o fazia ainda adorava, apesar de desmentir quem quer que fosse que tivesse a ousadia de lhe dizer tal disparate.

A partir dos doze anos a Maria perdeu o sorriso de menina, fechou a sete chaves o carinho que oferecia despreocupadamente aos pais, até então, e passou a usá-lo só em dias especiais e dentro de quatro paredes, claro está.

A Maria tinha um desejo louco de crescer, de interessar-se muito por roupas e maquilhagens, como as suas amigas. Queria muito impressioná-las com as suas unhas coloridas e as sapatilhas de marca.

A Maria queria sempre mais qualquer coisa e esses desejos nunca estavam verdadeiramente satisfeitos, ela própria já não se reconhecia, mas nunca vacilava. Nunca diria à mãe que tem saudades dos tempos em que pintavam e cortavam juntas folhas de papel colorido que serviam para criar monstrinhos divertidos, feitos à medida da sua imaginação. Jamais admitiria ao pai que sentia muita falta das histórias que ele lhe inventava antes de adormecer.

A Maria andava mais triste, mais fechada e mais perdida, no entanto, repetia a si mesma que isso fazia parte do crescimento, que as suas amigas tratavam os pais com a mesma indiferença e que só assim, com atitudes de meninas crescidas, poderia impressionar o Pedro. Mal sabia a Maria que o Pedro só pensava em ser jogador de futebol e que o interesse pelas raparigas só despertaria nele dois anos mais tarde.

A Maria baixou as notas e conseguiu que os professores falassem dela mais do que nunca, mas pelos piores motivos.

A doce Maria deu lugar à distante Maria. Distante da família, que a cada dia parecia perder mais uma batalha, distante dos estudos, que sempre a interessaram, e distante das amigas, que à sua maneira estavam a passar pelas mesmas angustias.

Mas estas meninas, iguais a tantas Marias, querem crescer demasiado depressa, sedentas de alcançar algo que a sua maturidade ainda não é capaz de compreender a 100%. Estas meninas tropeçam e poucas têm uns pais como os da Maria, sempre presentes, sempre atentos, sempre unidos, para a ajudar a levantar.

 Imagem daqui.