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há mar em mim

28
Jan19

Dou-te a mão e digo: "Vamos!"

C.S.

Olho pela janela.

O sol brilha lá fora para nos enganar. 

O vento que vem de norte sopra forte e gélido.

Tão frio. Encolhemo-nos perante o seu rigor.

"Quem de dera estar noutro lugar" - penso. 

Sonho com lugares distantes.

Elevo-me.

Levo o pensamento para sítios mais próximos.

Faço planos. Traço metas.

Hei de pôr tudo em prática. 

Aventurar-me no desconhecido.

Porque agitar é preciso.

Mexer com a vida para ver o que ela faz de nós.

Viver sem medo para chegar onde devemos.

Se hoje quero mais. Amanhã já não é tarde. 

Olho para ti. Observo-te.

Sorrio. Dou-te a mão e digo: "Vamos!". 

(Imagem aqui)

16
Jan19

Sabes lá tu o que é ser eu!

C.S.

E tu sabes lá!...

Sabes lá o que é andar sempre à pressa, 

ter a cabeça a prémio só por existir. 

Tu sabes lá!...

O que é chegar a casa já de noite,

não ter tempo para mais nada que não seja subsistir. 

E tu sabes lá!...

As horas que passo acordado,

a pensar, desesperado, numa forma de escapulir. 

Tu sabes lá!...

Não sabes o que farias se fosses eu. 

Não sabes minimamente o que me corroeu. 

Tu não sabes. 

Não sabes o que é entregar o coração diariamente.

Não sabes o que é viver doente.

Não sabes que te amo desesperadamente. 

Não sabes que o meu amor sempre te pertenceu.

Tu não sabes.

Simplesmente não sabes.

Sabes lá tu o que é ser eu!

(Imagem aqui)

17
Out18

O Fernando

C.S.

Fernando ia sentado no comboio, absorto nos seus pensamentos, mas sobretudo nas suas angústias. Regressava a casa numa hora que não era de ponta, facto que não invalidava que o comboio fosse bastante composto. 

Se alguém perdesse um pouco do seu tempo, naquele final de tarde gélido, e reparasse na postura de Fernando, rapidamente repararia que ele era a figura de um ser humano derrotado. Vencido pela vida, era assim que Fernando se havia sentido nos últimos anos. Às vezes, quando o pessimismo não o consumia por completo, Fernando tentava dar algum sentido à sua existência, mas deixava-se vencer demasiado rápido. 

É verdade que a vida não havia facilitado as coisas para Fernando. Tinha uma cara comum e só a cor dos seus olhos constituía um traço distintivo, eram de um verde azeitona profundo. Havia herdado os olhos da mãe que o abandonou quando ele tinha três anos de vida e o mundo todo por descobrir. Esse acontecimento fez com que Fernando usasse fralda até muito mais tarde do que era suposto. 

Fernando ficou aos cuidados do pai, que sempre se esforçou para que nada lhe faltasse, mas que era escasso em demonstrar afeto. Até entrar para a escola passava os dias com a avó paterna, uma senhora que cheirava sempre a tabaco e que dividia a sua casa com cinco gatos. Garantia que a comida não faltava ao neto, mas todo o cuidado que tinha para com ele não passava disso mesmo. 

Na escola Fernando era um aluno mediano e tinha dificuldade em fazer amigos. Fazia muitas conversas na sua cabeça, mas era quase sempre incapaz de as concretizar. Os professores pareciam não reparar muito nele, pois não arranjava conflitos e não tinha notas que o colocassem nos extremos. Era quase esquecível. Amou pela primeira vez no 10º ano. Bruna. A única rapariga que um dia lhe disse que ele tinha os olhos bonitos. 

Após concluir o secundário, Fernando entrou no mundo do trabalho, exatamente no mesmo ano em que o seu pai adoecera e falecera. Perdeu a única pessoa que parecia preocupar-se com ele minimamente. Fernando ficou entregue a si próprio. 

Trabalhava com afinco, era cumpridor e pontual, nunca faltava. Na sua cabeça haviam questões que o assombravam uma e outra vez, uma e outra vez, uma e outra vez... "Para que sirvo? O que ando cá a fazer? Se morrer ninguém sentirá a minha falta.". 

Foi imbuído nestes pensamentos que Fernando decidiu que no dia em que fizesse 30 anos celebraria colocando fim à sua existência. 

Era hoje, 14 de novembro, Fernando ia para casa para celebrar como havia prometido a si próprio. 

O comboio parou. Ainda faltavam quatro paragens para o destino final. Fernando sentiu uma mão pousada no seu braço, piscou os olhos antes de virar a cabeça ao ouvir:

- Fernando? - questionou uma voz doce e confusa.

Fernando tinha a certeza que não era com ele que falavam. Nunca era, por isso encarou-a com os seus olhos verdes cheios de perplexidade e não conseguiu sequer soltar um som.

- Fernando? És tu! És mesmo tu. - a voz da rapariga parecia entusiasmada e Fernando sentia-se a ter uma experiência fora do corpo. 

- Sou eu, a Bruna. Lembraste de mim? Fomos colegas no liceu, no 10º ano, mas eu depois mudei de escola...

- Bruna? - interrompeu-a Fernando, quase em surdina. 

Lembrava-se. Claro que se lembrava. Como podia havê-la esquecido? Estava mais bonita que nunca. Sempre tivera um sorriso doce. 

- Sim, sou eu. Que surpresa encontrar-te aqui. Como estás? - questionou ela casualmente. 

Que poderia ele responder? Não podia admitir que ia a caminho de casa para colocar em prática o seu plano de suicídio. Em vez disso disse-lhe:

- Julguei que nunca mais te iria encontrar. 

- Foi pena eu ter mudado de escola. O meu pai arranjou um novo trabalho, tivemos de mudar de casa. Eu gostava tanto de ti... - admitiu ela enquanto sorria e um rubor cobria-lhe as faces.

Fernando estava em choque. Sentiu uma descarga no seu corpo. Nunca ninguém lhe havia dito que gostava dele. E não esperava que a pessoa que o fizesse fosse a rapariga mais bonita e simpática que pisava o planeta Terra.

Aos poucos o seu plano ia-se desvanecendo. Fernando sorria, parecia ter voltado à vida ainda antes de morrer. 

(Imagem aqui)

09
Out18

Sonhos matinais

C.S.

Sinto o frio da manhã. 

Sorrio. Tinha saudades dele. 

Lá fora já há barulhos sem fim...

...a vizinha que tira o carro da garagem para levar a miúda à escola.

...os passarinhos que cantam na inocência da sua existência.

...uma mota que acelera sabe-se lá para onde...

...o cão do prédio da frente que quase nunca ladra, mas que agora está a fazê-lo com fervor.

A vida a avançar. Todas as manhãs ao seu próprio ritmo.

A vida a pulsar. Todos os dias, sem exceção.

Espreguiço-me. 

Também está na hora de eu avançar. 

É hora de calçar os sapatos rasos e enfrentar a loucura que me espera assim que atravessar a porta. 

Faço-me à vida.

Com o que tenho. 

Com o que sonho ter.

Faço-me à vida.

Na esperança.

Sempre na esperança de alcançar o mundo, por inteiro. 

Conhecê-lo. Torná-lo meu. 

O mundo. Tão grande. Imenso. 

E, no entanto, tão ao alcance. 

Meu. 

Teu. 

Nosso.

O mundo todo. 

Nosso e para sempre. 

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(Imagem aqui)

01
Out18

À segunda

C.S.

O despertador toca. Uma, duas, três vezes...

Um pé no chão. Não está frio.

Ainda não faz frio.

Outubro aqui. E o outono longe.

Que dia é hoje?

É segunda? Acho que é segunda...

Porra!... 

É segunda! 

Os primeiros minutos do dia passam sempre demasiado rápido.

A rotina matinal em passo apressado. 

Hoje não se põe rímel. 

Hoje enfrenta-se o mundo com as pestanas em tamanho regular.

Na cozinha o pequeno-almoço come-se. Não se saboreia.

Os sabores são para os domingos.

À segunda engole-se. 

Os sapatos. A mala. A garrafa da água.

As chaves. De casa e do carro.

Vá lá que ainda não precisamos de casaco. 

Tranca-se a porta. 

Chama-se o elevador. 

A marmita! Falta a mala da marmita!

O elevador chega quando a porta de casa se abre outra vez. 

Agora sim...

Agora é que é...

E a segunda que não para!

E a segunda que nos foge!

Parece que todos saímos de casa minutos mais tarde.

Encontramo-nos todos na mesma rotunda. 

Maldita segunda!

Abre o pisca. 

A cidade já fica para trás. 

Voltamos logo. 

À segunda. 

Vamos lá...

À segunda.

Que a vida é já. 

 

calendario-2012.jpg

(Imagem aqui)

02
Ago18

A vida.

C.S.

Romper com as predefinições,

Que hoje eu vou por mim.

Traço o meu caminho. Faço-me à estrada.

Sem medos.

Sem arrependimentos.

Os olhos postos apenas no que está além.

No desconhecido.

Um salto assente em determinação,

Que hoje eu vou por mim.

Não interessa o passado.

E do presente levo o impulso.

Busco o amanhã. O que me espera lá.

A estrada é longa, mas não assusta. 

Impele-me.

Chama-me.

E eu vou.

Porque a vida é hoje e amanhã.

Porque os planos vão-se construindo.

Porque o desconhecido é, nada menos, que sedutor.

Eu vou.

Hoje faço-me à estrada e levo na bagagem imensos sonhos por realizar.

 

IMG_20180730_085118_252.jpg

 (Texto inspirado por esta minha foto.)

 

 

 

25
Jul18

No meu coração cabe o mar

C.S.

No meu coração cabe o mar.

E no mar cabem as dúvidas e as certezas.

Os dias cinzentos e os dias coloridos.

Os dias planeados e os espontâneos. 

No meu coração cabe o mar.

E também a sua força.

E jovialidade.

E imprevisibilidade.

No meu coração cabe o mar.

E também a sua ira.

E a calmaria após a tempestade. 

No meu coração certamente que cabe o mar. 

E os teus sonhos.

E os meus. 

E o que somos. 

Em mim cabe sempre o mar. 

E nele caibo eu. 

E os meus eus futuros. 

E tu. 

No meu mar caberás sempre tu. 

 

20180709141101_IMG_2704_1.jpg

 (foto minha)

 

Parece que o há mar em mim vai voltar ao ativo. Ou pelo menos tentar... 

05
Jun18

A dormência dos dias

C.S.

Os dias sucedem-se e nós sucedemo-nos com eles.

Felizmente.

A vida passa e nós procuramos acompanhá-la. Às vezes superá-la.

Os dias entorpecem-nos os sentidos,

mas há sempre minutos em que conseguimos parar, respirar, apreciar.

Ultrapassar a monotonia. 

Correndo atrás de um pôr-do-sol.

Rindo até nos doerem os músculos.

Prolongando jantaradas.

Abraçando de forma apertada. 

Desfrutando.

Das pessoas.

Dos lugares.

Dos cheiros e sabores. 

Do que sentimos. Inteira e verdadeiramente. 

A vida é feita de tudo, mas também de nada. 

De pequenos nadas, que se transformam. 

Que nos transformam. 

Os dias sucedem-se, mas não nos deixam iguais. 

Somos sempre mais. 

Mais um pouco do que fomos há instantes atrás. Menos um pouco do que seremos.

Avancemos!

 

(Imagem aqui)

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