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há mar em mim

26
Out17

A C.S.

C.S.

Eu sou do Alentejo.

As planícies alentejanas serão para sempre uma paisagem à qual não consigo ficar indiferente. Tenho 31 anos, 7 dos quais passados no Algarve. O mar sempre fez parte de mim, ainda antes de tê-lo diariamente.

Provenho de uma família humilde. Os meus pais têm a 4.ª classe, como antigamente se dizia. São jovens. Estão ambos abaixo dos 55 anos. Foram eles que me ensinaram muito do que sei. Foram eles que me incutiram os valores que considero essenciais. Foram eles que me proporcionaram muitas das coisas que tenho.

A minha irmã partilha comigo muitos interesses, mas na generalidade somos muito distintas. Fomos o cão e o gato. Agora já somos mais a unha e a carne.

Sempre fui sociável e as pessoas reconhecem-me com facilidade por dois motivos: o sorriso e o cabelo. Tenho o choro fácil e a gargalhada mais fácil ainda.

Adoro a vida e todos os dias alimento novos sonhos. Sou genuinamente otimista, porque creio que viver com medo do que possa acontecer é uma tremenda perda de tempo. Mas tenho medos, como toda a gente.

Tive uma adolescência feliz. Conheci o amor na escola, mas só anos mais tarde é que o descobri verdadeiramente.

Casei e casava-me novamente, porque foi incrível e porque creio que o tempo nunca andou tão rápido como naquele dia 20.

Tenho amigas e tenho saudades delas. Vivem longe e estamos demasiado tempo sem nos ver.

Gosto de programas caseiros, mas nada me faz mais feliz que fazer a mala para ir a um lugar onde nunca estive.

Fascina-me o desconhecido e a surpresa da descoberta. O contacto com as pessoas e as suas vivências.

Não gosto de pensar que os melhores anos da minha vida foram os que já passaram.

Adoro gestos simples e pequenos momentos que se agarram à nossa memória para sempre.

Tenho mais respostas agora do que tinha há 10 anos, mas também tenho muito mais perguntas para as quais ainda não encontrei resposta. E está tudo bem.

(Imagem aqui)

 

16
Out17

O Dr. Guilherme

C.S.

Naquele início tarde, de um outono demasiado quente, Guilherme não imaginava o que lhe iria acontecer. Vinha de um agradável almoço com a sua filha mais velha, que iria casar-se no final do ano. Estava entusiasmado pela sua menina, que na verdade já era uma mulher deslumbrante e bem sucedida. Iria casar-se um ano depois de ter terminado o seu internato em pediatria. Um sonho tornado realidade. Desde muito cedo que a sua Lara quis seguir-lhe as pisadas no mundo da medicina, facto que sempre o encheu de orgulho.

 

Guilherme entrou no metro em passo apressado, verificando a sua agenda no smartphone, pois ainda o esperavam no consultório para cinco consultas e uma delas era com a sua paciente, grávida de gémeos, cuja tensão arterial o preocupavam.

 

Subitamente uma dor no peito. Lancinante. Soube de imediato do que se tratava e enquanto tentava racionalizar o que lhe estava a acontecer, o seu corpo começou a ceder, não conseguiu avançar muito mais, a dor cada vez maior e mais real. O seu corpo de 1,86m caiu ao chão. Os olhos fixos no teto daquela paragem de metro que fazia parte do seu dia-a-dia.

 

Pensou no casamento da filha e na dor que lhe causaria se não a pudesse acompanhar ao altar. Pensou no amor da sua vida, a mulher com quem partilhava a sua vida há quase quarenta anos. Queria tanto puder vê-la uma última vez, sentir o seu cheiro e acariciar os seus cabelos. Pensou no seu Tiago a viver sozinho pela primeira vez e logo num país estrangeiro. Queria visitá-lo de surpresa no início de dezembro, mas talvez não o voltasse a ver.

 

De repente sente umas mãos a comprimir-lhe o peito, uma e outra vez, uma e outra vez, ritmadas, enquanto ouve uma voz desesperada que lhe pede para se aguentar. Guilherme gostava de poder acalmar aqueles olhos verdes que se debruçam sobre ele e que lhe parecem estranhamente familiares. Tão bonitos. Tão puros. Tão tristes.

 

Antes de desmaiar compreende... Lamentavelmente, compreende que é a sua filha, a sua pequena Lara que no chão do metro, lavada lágrimas, faz os impossíveis para o agarrar à vida. Desculpa, Lara.

IMG_2874.jpg

(A magnífica foto que inspirou este conto é da autoria do João Freitas Farinha. É uma obra de arte, não é? Estes tons de preto e branco fascinam-me. Obrigada, João.)

 

03
Out17

O Bernardo

C.S.

Sou o Bernardo e sinto-me desconfortável quando olham diretamente para mim. Nunca pensei ter de recorrer a um psicólogo, mas aqui estou. Bastante cético quanto ao bem que isto me possa fazer... Na verdade, venho mais pelas pessoas que me pediram para o fazer do que por mim. 

 

Olho o relógio. São 16:30. A esta hora deveria estar a preparar-me para deixar o escritório e ir buscar o meu filho à escola. Baixo a cabeça e um vazio enorme apodera-se de mim. As mãos tremem-me. Tenho 43 anos e as mãos tremem-me e eu não compreendo nada do que se passa à minha volta.

 

Sei que a esta hora a minha mulher está em casa. Provavelmente a sentir-se perdida, como eu, mas não o posso garantir. Há meses que praticamente não falamos. Somos dois fantasmas presos dentro da nossa própria casa. Uma moradia. Virada a sul, com três quartos, grandes janelas e uma piscina. Tal como ela sempre quis.

 

Tudo me parece distante agora. Comprámos aquela casa há 10 anos, quando fui promovido, dois anos antes do José nascer e, no entanto, aquela casa e os sonhos de então parecem ter pertencido a outras pessoas que não nós. 

 

Envelheci imenso nos últimos meses. A Paula também. Deixei o ginásio, perdi peso, clientes e a vontade de viver. Ainda gosto da Paula, mas não sabemos como nos encarar. Não sabemos como conviver. Há dúvidas e rancor no ar. Há meses que durmo no sofá do escritório, não que ela me tenha pedido, mas foi algo que senti que devia fazer. 

 

A dor consome-nos. Os dias passam e parecem sempre iguais, ainda que uns dias fiquemos deitados até à hora de almoço. Não por sono. Não por preguiça. Simplesmente porque não sabemos o que fazer quando colocarmos os pés no chão. 

 

Sei que a Paula deverá estar a viver sentimentos idênticos aos meus. Sei que também ela se consome, mas não encontramos forma de nos olhar e tentar compreender. Não há nada que possamos compreender neste enorme absurdo que se tornou a nossa vida. 

 

Tenho 43 anos e tive um filho. Houve um tempo em que tive um filho. José. 8 anos. Terá para sempre oito anos o meu filho. Passaram-se meses desde que o abracei pela última vez. Era o miúdo mais bem disposto que conheci até hoje. Adorava animais, o Benfica e o espaço, sabia mais que eu sobre planetas e constelações. Sonhava muito, mas reparava no mundo à sua volta. 

 

Um dia acordei pai e a Paula acordou mãe. Uma manhã igual a tantas outras. Fomos trabalhar e ele foi para a escola. Ao fim do dia eu e a Paula já não éramos pais. Éramos uma sombra do que fôramos. 

(Imagem aqui

E nada disto faz sentido. O mundo avança e não deveria avançar. Não sem ele. Não sem justiça. 

 

19
Set17

A Adelaide

C.S.

Adelaide deixa-se cair sobre a cama, exausta, ainda com os sapatos de salto calçados, que hoje parecem ser feitos de chumbo. O seu minúsculo T1 está em absoluto silêncio, não se ouvem as correrias dos miúdos que vivem no andar de cima, nem as discussões conjugais que lhe chegam, todos os dias, vindas do 2.º esquerdo. 

Fecha os olhos e tenta recuperar as forças. Quase que adormece, mas subitamente põe-se de pé. Quebrou, por momentos, a sua própria regra: não se aproximar da sua cama com roupas vindas da rua, sobretudo se chega do trabalho. 

Agora terá de limpar todo o quarto e mudar os lençóis, claro está. Amaldiçoou-se por ter sido descuidada, mas conhece-se suficientemente bem para saber que se não proceder àquela limpeza não conseguirá dormir.

"Como pode ser irónica a vida..." - pensa, enquanto vai puxando a colcha e depois os lençóis.

Adelaide mete mãos à obra, sem vontade, mas com determinação. Não tarda o seu T1 estará a brilhar.

Não tem orgulho no que faz para ganhar a vida, por isso não deixa que as impurezas do exterior contaminem o seu espaço. Razão pela qual estabeleceu regras para si própria. Sempre que chega a casa troca de roupa, mas não sem antes tomar um banho demorado, esfregando todas as partes do seu corpo, como se estivesse a proceder a uma desinfestação. 

Já deixou de se martirizar pelo que faz. Aprendeu a aceitar o seu destino. Mas ainda lhe custa. Todos os dias lhe custa, ainda que o seu rosto já não o deixe transparecer. 

Agarra-se aos seus sonhos. À ideia de um dia poder voltar aos estudos, formar-se e começar do zero. Tem 23 anos e começou a trabalhar aos 16. Fugiu da casa onde era maltratada todos os dias, pelo padrasto, sem que a mãe fizesse qualquer esforço para o controlar. Julga que nunca a terão procurado, facto que, ainda que lhe tenha doído ao início, se revelou um alívio. 

Viveu nas ruas. Mendigou algum tempo e sentiu-se a pior pessoa do mundo, até que um dia a Dona Ritinha a encontrou. Ofereceu-lhe sopa quente e uma cama, algumas roupas novas e conhecimentos sobre como deveria aproveitar melhor o seu corpo.

Na noite seguinte começou a trabalhar. O seu primeiro cliente foi um sexagenário endinheirado, que cheirava a vinho e que tinha um dente de ouro. 

Adelaide não se recorda do nome dele, mas ainda hoje tem pesadelos com aquele homem. Depois de se ter entregue a ele, de se deixar usar por duas vezes, num estado de semiconsciência, ele deixou-a na mesma cama velha onde Ritinha a tinha mandado "tratá-lo com carinho, pois era um cliente habitual" e desapareceu. Ela ficou a sentir-se suja, pegajosa e malcheirosa. Chorou toda a noite e compreendeu, naquele momento, o significado da palavra solidão. 

A partir daí soube que estava completamente por sua conta e risco. Que tinha de cuidar de si, já que mais ninguém o faria. Continuou a vender o corpo porque ganhava um bom dinheiro, mas nunca deixou de lhe custar, simplesmente aprendeu a viver com isso. Foi traçando pequenos planos para si. Trabalhando para atingir pequenas metas. 

Conseguiu sair da casa da Dona Ritinha, que lhe ficava com 75% do que ganhava. Dividiu um quarto com uma colega de profissão durante algum tempo, depois conseguiu ter um quarto só para si e hoje vive no seu T1, que mantém impecavelmente limpo.

Sonha cada vez mais e melhor para si. Apesar de se sentir cada vez mais cansada. 

(Imagem aqui)

11
Set17

A Mariana

C.S.

Mariana acordara cheia de dúvidas e medos. Desde as 4h da manhã que não conseguiu adormecer mais. Olhara o relógio quase de meia em meia hora, mas à noite, quando o sono foge de nós, o tempo arrasta-se. Sabia que o dia que tinha pela frente iria determinar muita coisa. Sabia, também, que os pais, sobretudo a mãe, deveriam estar tão ansiosos quanto ela e esse facto doía-lhe.

O que aconteceu no ano passado ainda estava bem presente, não só na sua memória, como no seu corpo. Só há bem pouco tempo havia sido capaz de começar a abrir-se com a sua psicóloga, que era uma mulher de olhar doce e pose muito reta, sempre atenta e afável.

Mariana sabia o que a havia colocado no fundo do poço, demorara a compreender tudo, a conseguir juntar todas as peças do puzzle, mas agora sabia. Contudo, ainda não tinha certezas de ter força para sair de lá, ainda que os médicos atestassem que estava a melhorar a olhos vistos.

Os pais mudaram-na de escola, na esperança de que o novo ano letivo, que hoje se inicia, representasse efetivamente um recomeço para a filha. Já não lhes importava o quadro de mérito, finalmente haviam compreendido que a saúde da filha era a sua prioridade e que a ambição que tinham, juntamente com a competitividade que lhes era tão característica, tinham contribuído, também, para o que acontecera.

 

A mãe entrou no quarto e chamou-a com carinho, sobressaltando-se ao ver que a filha não estava na cama. Mas ouviu a sua voz a responder-lhe da casa-de-banho. Beijou-a na testa quando esta reentrou no quarto, segurou-lhe na mão e perguntou-lhe com carinho se estava preparada.

- Sim, mãe. Vou-me vestir e desço já para o pequeno-almoço. - respondera a rapariga com tristeza na voz.

 

Comeram em silêncio e meteram-se no carro. O percurso até à escola foi preenchido por um monólogo incentivador por parte da mãe, Mariana ia-lhe respondendo com acenos de cabeça e monossílabos de assentimento, enquanto olhava pela janela do carro. Parecia-lhe que havia envelhecido 10 anos, que se havia convertido numa pessoa totalmente diferente e este regresso à escola estava a deixá-la com sentimentos contraditórios.

Despediu-se da mãe com um beijo rápido e começou a andar lentamente, mas ao estar em frente ao portão que dava acesso ao recinto escolar foi atingida por um comboio de memórias, como se estivesse a ler novamente todas as mensagens maldosas que circularam sobre si na internet, sentiu os pulsos a doerem-lhe, exatamente nos sítios onde ainda persistiam as marcas dos cortes que ela própria fizera e por fim, voltou a ter, por momentos, aquela dor lancinante que sentira ao tomar a caixa de antidepressivos que havia roubado da casa dos avós.Tudo havia terminado naquela tarde de maio, se o pai não se tivesse esquecido das chaves em casa.

Mariana fechou os olhos, tentou afastar tudo da sua cabeça e repetiu para si mesma que era uma escola nova, que ali ninguém conhecia a sua história, nem as suas fragilidades. Finalmente, ia iniciar o ano no curso de artes, o que sempre quis, onde os pais não a haviam deixado matricular-se no ano anterior.

Era um virar de página. Sem dúvida, aquele de que precisava.

(Imagem aqui)

 

31
Ago17

A Marta

C.S.

22h35

Ouço a chuva, ao longe. Miúda. Ritmada.

Algo em mim estremece. Inspiro. Uma e outra vez e cada vez mais fundo e procuro afastar o pensamento que não me sai da cabeça.

Fecho os olhos, com força. Mas a imagem que vi não se dilui.

 

- Marta! Marta! Marta!...

 

Alguém chama por mim. Alguém que já deu pela minha falta. Sinal de que não resta muito tempo até que me encontrem. Obrigo o meu corpo a mover-se. Cambaleia. Concentro-me. Tenho de sair daqui. Afastar-me.

Começo a correr, nunca fui grande corredora, mas a adrenalina que sinto parece ajudar-me. Corro sem olhar para o que me rodeia, não sei para onde vou, mas sei exatamente do que fujo.

Sinto as mãos molhadas e sei que se olhar para elas estarão sujas de sangue.

 

00h30

A minha bebé está desaparecida. Passaram cerca de três horas desde que ela desapareceu, mas é impossível não pensar nos piores cenários.

A Marta. A minha Marta. Uma filha extremamente amorosa, uma aluna exemplar, querida por toda a comunidade escolar. Até aos 14 anos um sonho de menina. E depois tudo mudou. Deixei de a reconhecer. Ela própria foi-se abandonando aos poucos, até restar apenas uma sombra do que fora.

A minha Marta. Tem hoje 20 anos, a minha bebé.

Talvez a culpa seja nossa. Talvez seja minha, eu que sou a mãe, deveria ter compreendido mais cedo. Deveria ter lido os sinais. As mães deveriam estar aptas para captar este tipo de coisas.

 

- Júlia. Júlia!

 

01H12

A Marta está bem, por agora.

Foi levada para o hospital e os pais estão a ser aconselhados a deixá-la lá por alguns dias, quem sabe se não serão mesmo algumas semanas.

Dói-lhes entregar assim a filha, pois nunca antes estiveram sem ela, mas Júlia sabe que o que aconteceu hoje pode repetir-se. Sabe também que a Marta anda a fugir cada vez mais à medicação. Chora. Sente-se culpada e impotente. O marido abraça-a, também ele sem forças.

Ambos se recordam bem do dia em que a Marta foi diagnosticada com esquizofrenia. Foi há dois anos atrás. Num estranho e frio mês de março e a vida deles nunca mais foi a mesma.

Muitos dos seus sonhos ficariam por concretizar. Ficaram atónitos. Não aceitaram. Pediram uma segunda, terceira e quarta opinião. Todas iguais. A mesma sentença.

Eles que planearam a brilhante vida da sua bebé foram atirados de um precipício. Pelo menos era o que sentiam.

Todos os dias.

 

(Imagem aqui)

 

 

 

01
Ago17

A Luana

C.S.

Luana tem olhos pretos e rasgados, grandes e, às vezes, um pouco assustados. Deve o nome à lua, claro está. A mãe diz-lhe que nasceram ao mesmo tempo, mas Luana não gosta da noite, teve medo do escuro até aos 7 anos.

 

Agora tem 17 anos e não gosta muito de sair de casa. Arrasta-se até à escola, apesar de gostar das aulas. Não gosta é do caminho de 2 km que tem de percorrer duas vezes ao dia. Também não gosta da disciplina de educação física, pois implica que se dispa em frente das colegas de turma, todas elas barbies perfeitas, altas, loiras e populares.

 

Luana não gosta muito de pessoas, se tivesse de escolher preferia viver somente rodeada de gatos. Gatos e livros eram tudo o que ela precisava para ser feliz. Bom... E esporadicamente uma visita da mãe.

 

Temia o desconhecido, apesar de possuir um fascínio pelo universo e pelo interior do corpo humano. Nunca pensava em rapazes, nunca se interessou por nenhum, julgava-os a todos pouco inteligentes e acreditava que quanto mais corriam atrás de uma bola de futebol mais estupidificados ficariam.

 

Às vezes via-se ao espelho e achava-se velha e esse reflexo nunca a incomodava, queria envelhecer rapidamente, saltava aqueles anos cheios de vitalidade, que toda a gente dizia que seriam os melhores de toda a sua vida. Luana duvidava muito dessas afirmações e as doenças que surgiam com a idade não a assustavam, achava, até, os óculos um acessório bastante charmoso, mas infelizmente ainda não necessitava deles, via perfeitamente.

 

Gostava de fazer ponto de cruz, aprendera com a avó materna aos 9 anos, naquele maravilhoso verão em que teve varicela e ninguém a chateou para sair de casa.

 

À beira dos 18 anos Luana entrará na universidade, em Medicina, incentivada pelo seu professor de Biologia, que desde o 10.º ano lhe dizia que deveria ser esse o seu caminho.

A rapariga não contrariou o professor, tinha notas para entrar em Medicina e gostava da ideia de fazer cirurgias ou descobrir a cura para uma doença rara, só temia vir a tornar-se uma médica de família, daquelas que lidam com mais de 20 doentes num dia. Não, isso Luana não aguentaria, era demasiado contacto humano.

(Imagem aqui)

Um dia destes, a Luana desajeitada, como a mãe lhe chamava, concluirá o curso com distinção, mas na tarde em que receber o seu diploma eclipsará para sempre.

24
Jul17

A Carlota

C.S.

Carlota, tal como todos nós que por aqui andamos, não pediu para nascer e os seres que a conceberam tão-pouco sonharam algum dia com ela.

Nasceu fruto de um crime. Da maldade de um homem para com a sua mãe, mulher com problemas mentais, que a carregou nove meses e que que sempre precisou de terceiros para que a ajudassem a cuidar da filha.

 

Carlota faz hoje 40 anos. Tem uma família que ama. Ela, o marido e os filhos são felizes. Pessoas humildes que lutam diariamente por uma vida digna. Pelos filhos, para que nada lhes falte.

Carlota é serena, nada a faz perder a paciência. Conhece bem o seu passado, já que cedo exigiu aos avós que lhe fosse relatado. Nunca o esquece, mas não vive presa a ele.

Respeita e admira a mãe, acarinha-a e desde cedo compreendeu que os seus papéis rapidamente se inverteriam. Um dia quis olhar nos olhos do homem que esteve presente na sua conceção e conseguiu-o. Teve vontade de o matar, mas rapidamente compreendeu que ele apenas merecia o seu desprezo. Também teria merecido a prisão, há anos atrás, se os seus avós não tivessem receado apresentar queixa contra alguém influente da aldeia. Temeram que ninguém acreditasse no que havia ocorrido. Guardaram as dores, a revolta e a vergonha.

Carlota, se tinha algum tipo de sentimento por aquele homem, matou-o naquela manhã de finais de outubro em que o conheceu.

Aos seus filhos nunca contou a verdade, disse-lhes que o avô havia morrido quando ela tinha meses. Apenas o marido conhecia as suas verdadeiras feridas, aquelas que não admitia a ninguém.

(Imagem aqui)

Carlota faz hoje 40 anos e vê-se ao espelho, por momentos volta a sentir aquela dor que não sentia há vários anos, a dor de saber que não deveria ter nascido, mas a filha mais velha desperta-a dos seus pensamentos, aproxima-se, abraça-a e diz-lhe como ela está linda e acrescenta, enquanto a puxa por uma mão:

- Vem, o papá está à nossa espera, preparámos-te uma surpresa.

 

11
Jul17

A Vila

C.S.

A vila é igual a tantas outras. Não tem nada de singular, isto se não contarmos com o marreco, que todos conhecem, mas que ninguém sabe o seu verdadeiro nome.

A vila é devota, isto se não contarmos com os pecados que todos por lá cometem, mas dos quais ninguém gosta de falar.

É prendada, todos os anos, com fenómenos naturais que estragam as colheitas e que requerem subsídios exteriores, isto se não contarmos com as vinhas, que de ano para ano estão mais rentáveis.

Na vila há muita gente desempregada, isto se não contarmos com os que passam os dias no café, a beber minis, matando a sede, preferindo o desemprego ao cabo da enxada.

Todos são felizes na vila, isto se não contarmos com os vários funerais a que todos vão assistir, com pompa e circunstância.

Não há festas melhores que as da vila, isto se não contarmos com todas as outras que se fazem nos arredores.

A vida na vila é mais calma, isto se não contarmos com as discussões geradas pelo futebol.

Na vila o ar que se respira é mais puro, isto se não contarmos com o aterro sanitário que se encontra a 12 km de distância e cujo cheiro, às vezes, o vento teima em trazer.

Aqui na vila a vizinhança é mais unida, isto se não contarmos com a cobiça da mulher alheia.

Cá na vila os animais são mais felizes, isto se não contarmos com as matanças e as touradas que se fazem em honra de nossa Senhora.

Na vila as mulheres preocupam-se muito com a família, isto se esquecermos as chineladas que os miúdos levam quando se atrasam para o jantar.

Aqui na vila as crianças brincam mais na rua, isto se esquecermos as horas em que veem televisão ou jogam no telemóvel.

A vila tem os melhores políticos, isto se apenas pensarmos nas excursões que a junta de freguesia organiza.

Na vila todos são mais saudáveis, isto justifica-se porque o médico só aparece uma vez por mês e não há tempo para se ficar doente.

A verdade é que na vila vive-se melhor que em qualquer outra parte, isto se não pensarmos que já todos desejaram sair, mas que lhes faltou a coragem.

´(Imagem aqui)

 

04
Jul17

A Dona Guiomar

C.S.

A Dona Guiomar tem oitenta anos, mas ninguém lhe dá mais de sessenta e se não fosse a ciática, que às vezes a obriga a ficar mais tempo em casa, continuaria a fazer as suas longas caminhadas junto ao rio.

Não lhe custou envelhecer, após fazer vinte e cinco anos nunca mais se preocupou com a idade e diz muitas vezes, em tom de brincadeira, que esse é o seu segredo para a juventude eterna. Amadureceu sem se preocupar com o que o tempo lhe faria e talvez essa confiança que lhe depositou tenha sido o segredo para que ele tenha sido generoso com ela.

Só teve o primeiro cabelo branco perto dos quarenta e as rugas nunca a marcaram antes dos trinta e cinco, sem contar com aquela de expressão que tinha cravada na testa, julgava que desde sempre.

Jamais se privou de rir ou chorar, sempre foi uma mulher de emoções fortes, e com quatro filhos orgulha-se de que tenha tido mais motivos para rir.

O maior desgosto da sua vida foi a perda do marido, quando tinha setenta e cinco anos. O coração dele não aguentou e o dela andou perdido durante largos meses. Afinal, ele fora o amor da sua vida. Mas nunca foi mulher de se entregar à dor e sempre achou que as depressões eram uma perda de tempo e, eventualmente, acabou por sarar a ferida, que continua em crosta, mas que pelo menos já não está exposta.

Foi a neta Inês que, sem saber, a ajudou a sair do buraco para o qual parecia caminhar, ao vir um dia a sua casa e pedir-lhe fotos antigas para um qualquer trabalho da escola.

Havia muito tempo que Guiomar não se cruzava com aquelas fotos, hoje em dia estavam todos guardadas nos telemóveis, onde ficavam até ser necessário exibir a algum amigo a nova proeza na cozinha ou as perícias futebolísticas dos netos.

Guiomar sempre adorou ver fotografias e encontrar-se de novo com o seu passado feliz devolveu-lhe novo alento. No seu íntimo sabia que a característica que o marido sempre mais admirara em si era o seu otimismo e, naquela tarde, garantiu a si mesma que não se deixaria vencer facilmente. Arranjou-se e saiu para ir à sua cabeleireira de sempre, que ficou muito contente por a ver novamente e lhe tratou do cabelo com todo o cuidado do mundo. Depois ligou aos filhos e pediu-lhes que viessem todos jantar a sua casa naquela noite.

Foi um serão muito agradável e Guiomar disse-lhes que estava grata por poder permanecer mais uns tempos com eles. Abriu-lhes o coração e falou-lhes do pai e de como ele a tinha feito feliz a vida inteira.

Aquela noite acabou por ser uma das mais agradáveis que passaram juntos, nos últimos tempos, riram e choraram e deixaram-se embalar pelas palavras daquela mulher que transparecia ternura em todos os seus gestos.

Os filhos de Guiomar sentiram-se inspirados e, cada um à sua maneira, naquela noite agradeceram os pais e a vida que tinham e desejaram que a mãe pudesse ser eterna.

 

(Imagem aqui)

 

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