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há mar em mim

há mar em mim

A Sara

03.03.17 | C.S.

A Sara trabalha das nove às cinco. É funcionária pública há mais de oito anos, mas ainda não viu qualquer vantagem nisso. Leva comida de casa, que come sozinha na hora e meia que tem de almoço, e a sua grande extravagância é o café e o pastel de nata que consome na pastelaria situada três portas abaixo do seu local de trabalho.

Trabalha sentada e, às vezes, incham-lhe os pés. Tem pressa em chegar ao metro, mas não tem pressa em chegar a casa. Gosta de observar as pessoas no metro, imagina-lhes as vidas e sorri-lhes de vez em quando.

A Sara casou há cinco anos e divorciou-se há três. Queria filhos e ele queria liberdade. Queria um amor que fosse também um amigo e ele queria uma mulher que fosse também empregada. Um dia a Sara perguntou-lhe se ele era feliz. Ele riu alarvemente e disse: "Ainda bem que concordas que isto não está a funcionar, já arranjei casa do outro lado da cidade e já coloquei esta à venda".

A Sara emudeceu. Arrumou a sua vida em caixas e mudou-se para o  estúdio onde hoje ainda vive sozinha. O estúdio que o seu dinheiro lhe permite pagar. Pequeno e escuro, mas ao qual ela já se habituou.

A única e maior viagem que fez foi à Madeira, na sua lua de mel, quando acreditava que tudo era possível e ele lhe prometia este mundo e o outro.

Hoje a Sara é mais realista. Já não vai em conversas e deixou de acreditar no amor. Compara muitas vezes a sua vida ao deserto que lhe é homónimo. Tem três sobrinhos e é madrinha de um deles, adora-os, mas o amor que sente por eles dói-lhe, porque a fazem relembrar da família que não foi capaz de construir.

Se a Sara tivesse coragem faria as malas e mudar-se-ia para o outro lado do mundo, mas quando pensa nisso as suas pernas tremem e afasta esse pensamento enquanto beberica um copo de vinho tinto.

A tia Sara descobrirá o amor depois dos 50, mas não conseguirá apagar a mágoa de não ter tido filhos.

 

(Imagem aqui.)

3 comentários

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    C.S.

    03.03.17

    Robinson, é um conto.
    Eu acho que ter ou não ter filhos deverá ser uma decisão de cada mulher, não creio que seja uma mágoa para quem decide não os ter, pelo contrário.
    Relativamente ao outro lado do mundo, só posso dizer que se eu estivesse no lugar dela iria, mas é um conto, é um personagem e este saiu assim.
  • Imagem de perfil

    Robinson Kanes

    03.03.17

    Eu percebi :-)
    Só estava a trazer o conto para o palco do real…:-)
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