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há mar em mim

17
Mar17

O Carlos

C.S.

Hoje o dia amanheceu noturno.

A cidade parece ainda dormir, a sua respiração tranquila e ritmada confirma-o.

Só ao longe se acendem luzinhas num prédio distante. Numa manhã fria e escura, como esta, tudo se torna mais lento e arrastado.

Ele olha pela janela e estremece. Não, ainda não será hoje que sai de casa. Respira fundo, passa a mão pelo cabelo e lembra-se que ontem deveria tê-lo lavado, mas não teve coragem suficiente para se arrastar até à casa de banho. E a porra do esquentador não aquece a água como deve ser.

Como chegou aqui? Como permitiu que a sua vida desmoronasse? Como é que ainda consegue ir espreitar à janela?

Sente-se inútil. Todos os dias a história se repete e todos os dias ele sente-se um pedaço de merda.

Carlos tem 27 anos, um jovem, diriam muitos, mas ele sente-se mais próximo dos 72. No último ano sente que envelheceu décadas e, no entanto, não ganhou qualquer sabedoria com isso, antes pelo contrário, sente-se mais confuso e mais perdido que em qualquer outra fase da sua vida. Gostava de poder voltar a ter 12 anos, onde a sua única preocupação consistia em decidir se queria lanchar um bolicao ou um donut.

Ele que queria conhecer o mundo e que ambicionava namorar o maior número de mulheres possível deixou-se enfeitiçar por ela, por a sabedoria dos seus 46 anos, pelas noites tórridas que lhe proporcionou, pela sua elegância e pela forma que o prendia com o olhar quando falava. A sua boca parecia dizer-lhe sempre mais do que ele escutava.

Carlos, apaixonou-se. Pareceu-lhe cliché, na altura, mas não quis saber. Nunca tinha sentido nada assim, a adrenalina era muito maior do que aquela que havia experimentado nas várias montanhas russas por onde andou. Ele não a poderia perder. Ele, um miúdo, tinha conseguido entrar na vida da mulher mais bonita e sensata que alguma vez conhecera. Isto era o que ele pensava.

Os amigos de Carlos achavam que ele estava enfeitiçado, que não via o mesmo que eles viam e, ao início, verdade seja dita, acharam graça à cota. Gostaram de ver o amigo a papar a velha, mas com o tempo perceberam que ela o estava a transformar, que ele se afastava cada vez mais e raramente se deixava ver e, nas raras ocasiões em que ainda lhes fazia companhia não largava o telemóvel, passando as horas a dar-lhe explicações sobre tudo aquilo que poderia ou não poderia estar a fazer.

Os amigos começaram a dizer a Carlos para se afastar dela, mas só o conseguiram perder ainda mais.

Carlos casou com ela, sem festa, sem família, sem amigos. Disse-lhe que sim a ela e às sua dívidas, aos filhos que não sabia que ela tinha e ao negócio da droga que ela geria. Tudo em comunhão de bens, claro está. Tudo sem que ele soubesse, pelo menos, da ponta do icebergue.

Um dia, por portas e travessas, Carlos descobriu que casara com uma mulher com identidade falsa e quando a confrontou com isso achou extraordinária a capacidade que ela teve para se manter serena. Discutiram, discutiram muito, mas na verdade foi Carlos quem gritou mais, contudo, deixou-se vencer pelo cansaço e pelo desejo louco que sempre sentira pelo corpo dela. Na manhã seguinte ela já não estava. Havia-se evaporado. Foi como se aquela mulher nunca tivera existido. Deixou-o completamente vazio, em todos os sentidos que sejam possíveis imaginar.

Carlos não sabia o que fazer. Sentia uma vergonha enorme por se ter deixado levar. E andava há dois meses a ganhar coragem para contar o que se passara a alguém. Mas a pergunta era a quem. Pois, ela tinha-o conseguido afastar de tudo e todos, como se o tivesse arrancado pela raiz da vida que antes tinha. Daquele rapaz alegre que ele fora.

 

(imagem aqui)

 

 

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