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há mar em mim

30
Jan19

O que queres fazer?

C.S.

O que queres fazer?

 

É terrível esta pergunta.

Assustou-me no 9º ano, quando eu tinha 14 anos e tive de tomar uma decisão para o futuro. Na altura eu sabia duas coisas: que queria que o Benfica fosse sempre campeão e que as únicas aulas que me entusiasmavam verdadeiramente eram as de Português. Dessem-me textos para ler e temas para escrever e eu era uma adolescente feliz.

 

Fantasiava com o amor. Era romântica e nostálgica e sonhava com uma vida melhor. Os livros eram o meu aeroporto, numa altura em que eu ainda não fazia a mínima ideia do aspeto de um. Ninguém me ajudou na decisão, naquele ano de 2001. Porquê? Porque na minha família impera a baixa escolaridade, (os meus avós, maternos e paternos, foram toda a vida analfabetos, por exemplo.), e a minha mãe ouvia-me mas, compreendo hoje, não estava minimamente dentro do sistema de ensino e não tínhamos consciência lá em casa do peso da decisão que eu ia tomar. Sorte a minha, nunca poderia ter sido outra. As humanidades eram o que me apaixonava e os testes psicotécnicos evidenciaram isso mesmo.

 

Fiz o secundário com poucos percalços, mas um deles foi compreender tardiamente que as notas do secundário seriam o meu bilhete de acesso ao ensino superior. Por esta altura comecei a achar que queria uma vida de jornalista, (como não desejar ganhar a vida a escrever?!), ao mesmo tempo em que me rendia à fotografia, ainda que não tivesse qualquer equipamento, fascinava-me o facto de poder conservar para sempre um instante. 

 

Sonhava em viver perto do mar ou mudar-me para o Porto com a minha melhor amiga, onde dividiríamos casa e seriamos universitárias empenhadas.

 

Acontece que nada disto aconteceu. 

 

Por um infeliz acaso eu fiquei mais um ano na secundária e os meus amigos foram às suas vidas. A minha melhor amiga não foi para o Porto, nem para Lisboa, que era a sua segunda opção. Ficou em Évora. E eu? 

 

Eu senti-me meio abandonada durante uns tempos. Depois arregacei as mangas e fiz o que tinha a fazer. Trabalhei durante o verão. Fiz 18 anos e recebi o meu primeiro ordenado no mesmo dia. Entrei no 12º outra vez. Nunca tinha repetido um ano e foi estraníssimo. Saí do grupo de teatro porque já não era a mesma coisa, pois faltavam-me as minhas pessoas, mas melhorei algumas notas e concluí a que havia para concluir. Tirei a carta. E fui pensando no futuro. A professora de Português dizia-me para ler Cartas a Um Jovem Poeta, de Rilke, com o intuito de me inspirar, enquanto a professora de Psicologia me falava de um novo curso na Universidade do Algarve. Também me disse que a língua espanhola era a próxima língua a entrar em força nas escolas. 

 

E eu ponderava. Ponderei até ao último momento. Até não poder mais mesmo. E sem certezas de nada, sem exemplos próximos, tive medo de colocar os meus pais numa situação económica delicada e decidi-me pelo curso que me daria a oportunidade de ficar em casa - Línguas, Literaturas e Culturas - Estudos Portugueses e Espanhóis. 

 

Nunca sonhei ser professora, mas foi no que me tornei. A minha profissão já me deu muitos momentos felizes. E no entanto, não sei se é o que quero ser a vida toda. E este assunto é como uma dorzinha chata. Não mata, mas mói. 

 

Talvez seja só o cansaço a falar. Talvez estas palavras sejam motivadas pela quantidade insana de trabalho que tenho enfrentado ultimamente, (este ano tenho mais de 150 alunos!), mas a verdade é que estou cansada. A segunda verdade é que ainda existe em mim o sonho infantil de viver de e para as palavras. O que é uma grande idiotice, eu sei. E sim, sei como é difícil arranjar emprego hoje em dia e sei que não tenho experiência em mais nada que valha a pena para além do ensino. Eu sei tudo isso. E contudo... 

 

O que queres fazer?

 

Ainda é uma pergunta que me assusta. 

(Imagem aqui)

15 comentários

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    C.S. 30.01.2019

    E estás feliz? Isso é que importa...
    Eu não estou, custa-me admiti-lo, mas profissionalmente não sou inteiramente feliz. 
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    Sofia 30.01.2019

    Tenho a sorte de puder dizer que gosto do que faço! Só não gosto é do ordenado.
    Querias dedicar-te á escrita?
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    C.S. 30.01.2019

    Pois... E a parte monetária também conta muito, porque é o que nos coloca o pão na mesa, digamos assim...
    À escrita? Queria. Queria muito. Se teria capacidade para tal já é outra conversa. 
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    Sofia 30.01.2019

    Porque não começas como pequenos contos? Hoje, em dia é fácil editar um livro.
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    C.S. 30.01.2019

    Sim, hoje em dia é fácil editar um livro, sendo tu a correr o risco, sendo tu a pagá-lo. E sabes que indo para uma edição de autor nem sequer te fazem uma revisão justa e parcial do texto? O que querem é o dinheiro... Se o teu livro é bom, se o vendes ou não, já é outra conversa...
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    Sofia 30.01.2019

    Eu sei disso! Mas era algo para ti. Acredito que irias adorar ter e ler as tuas palavras num livro.
    O nosso mercado é complicado. Seria um hobbie ou querias mesmo fazer uma profissão da escrita?
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    C.S. 30.01.2019

    Ter o meu livro é um sonho antigo. Talvez dos mais antigos. Gosto de palavras, sempre gostei delas e foram elas que me trouxeram aqui. Foi o gosto que desenvolvi por livros que me levou a adorar as letras e humanidades, que por sua vez me colocaram no curso de línguas e literaturas, que me conduziu ao ensino. As letras são velhas amigas. 
    Mas gostava de ter o meu nome na capa de um livro só por vaidade? Não. Gostava de tê-lo lá por mérito. 
    Se, aparte do livro, me estás a perguntar se gostava de trabalhar para uma editora, para um jornal ou revista? Sim. Despedia-me já amanhã se soubesse que teria essa oportunidade. 
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    Sofia 30.01.2019

    Não, o referi como uma vaidade! Mas sim, o realizar de um sonho, seria o teu bebé literário.
    Sabes que neste país, a maioria das pessoas não conseguem as coisas por mérito?
    Já pensas-te em voltar a estudar? Para quem sabe trabalhar tal como tu dizes, numa editora, jornal ou revista?
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    C.S. 30.01.2019

    Já. Muitas vezes.  Muitas. Tantas que ando a ponderar dar uma volta à minha vida para o poder colocar em prática. 
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    Sofia 30.01.2019

    Se é uma ideia enraízada, força!
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    C.S. 30.01.2019

    Não o consigo fazer a curto prazo, mas a médio é possível. 
    Se for para a frente com o plano logo conto aqui no blog... 
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    Sofia 30.01.2019

    Tens que o fazer com os pés bem assentes na terra!
    Faz com calma. Fico á espera.
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    C.S. 30.01.2019

    Obrigada, Sofia. 
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    Sofia 30.01.2019

    Não, podemos desistir dos nossos sonhos!❤️
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