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há mar em mim

31
Jan19

O Artur

C.S.

- Hey! Tu aí... Sim, tu. Tu que olhas para o monitor. Não adianta olhares para o lado ou tentares disfarçar. É mesmo contigo que eu quero falar. 

 

O meu nome é Artur. Nunca saberás se este é o meu verdadeiro nome, mas isso agora não interessa nada. O que interessa é que continues a ler e acredites no que te vou dizer. 

 

Eu já fui uma pessoa como tu. Já tive sonhos e já alimentei esperanças. Votava nas eleições que achava serem importantes. Casei-me, mas não tive filhos. Fui deixado ao fim do terceiro ano de casamento. Trocado por outro. Culpa minha, disse ela, que não a soube estimar. A puta. Mas amava-a. Apenas lhe bati uma vez. 

 

Eu já fui outra pessoa. Já tive uma vida. Nem sempre me escondi atrás do ecrã de um computador. Fui forçado a fazê-lo, sim, forçado.

 

"Por quem?" - perguntas. Pelos mesmos que me raptaram o cão faz amanhã cinco meses. Pelos mesmos que me obrigaram a ficar embriagado na festa da firma e a dizer aquelas alarvidades todas ao chefe. Pelos mesmo que ameaçaram matar a minha mãe se eu continuasse a ligar para a GNR a tentar pedir ajuda. 

 

Esta é agora a minha realidade. Já fui uma pessoa, mas agora já não sou. Pelo menos já não sou eu. Estou confinado a quatro paredes e tudo o que eles me disseram foi que não posso sair daqui. Não posso ver ninguém. Não me deixam fumar. Nem beber. E não, não tenho smartphone. Tiraram-mo, como deves calcular... Pensam que sou o fantoche deles. 

 

Não sei o que querem de mim, mas sei que não quero colaborar mais com eles. Não deixarei que me obriguem a fazer mais coisas contra a minha vontade. Estrangular a vizinha durante a noite foi a gota de água. Nem sequer tinha nada contra ela. A ter alguma coisa a apontar-lhe seria o facto de ela deixar sempre o carro à minha porta e não à dela. Agora nunca mais o vai tirar daqui e eu pergunto-me quem o fará. Mas não importa. Amanhã também já não vou cá estar. Mas vocês vão. E eu preciso da vossa ajuda. 

 

Estão preparados?

 

A vossa missão é contar a verdade. Tão simples quanto isso. Quando ouvirem falar de mim contem o que eu vos transmiti. Digam apenas a verdade. 

(Imagem aqui)

 

NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA - FOI ENCONTRADO MORTO O HOMEM DE 43 ANOS QUE VIOLOU E MATOU A VIZINHA EM ABRAVESES, VISEU. TRATAVA-SE DE UM DOENTE DA ALA PSIQUIÁTRICA DO CENTRO HOSPITALAR CONDE DE FERREIRA, NO PORTO, QUE ESTAVA DESAPARECIDO DESDE O PASSADO DOMINGO. AS AUTORIDADES JÁ ESTÃO A INVESTIGAR, MAS ACREDITA-SE QUE O HOMEM SE TERÁ SUICIDADO. 

17
Out18

O Fernando

C.S.

Fernando ia sentado no comboio, absorto nos seus pensamentos, mas sobretudo nas suas angústias. Regressava a casa numa hora que não era de ponta, facto que não invalidava que o comboio fosse bastante composto. 

Se alguém perdesse um pouco do seu tempo, naquele final de tarde gélido, e reparasse na postura de Fernando, rapidamente repararia que ele era a figura de um ser humano derrotado. Vencido pela vida, era assim que Fernando se havia sentido nos últimos anos. Às vezes, quando o pessimismo não o consumia por completo, Fernando tentava dar algum sentido à sua existência, mas deixava-se vencer demasiado rápido. 

É verdade que a vida não havia facilitado as coisas para Fernando. Tinha uma cara comum e só a cor dos seus olhos constituía um traço distintivo, eram de um verde azeitona profundo. Havia herdado os olhos da mãe que o abandonou quando ele tinha três anos de vida e o mundo todo por descobrir. Esse acontecimento fez com que Fernando usasse fralda até muito mais tarde do que era suposto. 

Fernando ficou aos cuidados do pai, que sempre se esforçou para que nada lhe faltasse, mas que era escasso em demonstrar afeto. Até entrar para a escola passava os dias com a avó paterna, uma senhora que cheirava sempre a tabaco e que dividia a sua casa com cinco gatos. Garantia que a comida não faltava ao neto, mas todo o cuidado que tinha para com ele não passava disso mesmo. 

Na escola Fernando era um aluno mediano e tinha dificuldade em fazer amigos. Fazia muitas conversas na sua cabeça, mas era quase sempre incapaz de as concretizar. Os professores pareciam não reparar muito nele, pois não arranjava conflitos e não tinha notas que o colocassem nos extremos. Era quase esquecível. Amou pela primeira vez no 10º ano. Bruna. A única rapariga que um dia lhe disse que ele tinha os olhos bonitos. 

Após concluir o secundário, Fernando entrou no mundo do trabalho, exatamente no mesmo ano em que o seu pai adoecera e falecera. Perdeu a única pessoa que parecia preocupar-se com ele minimamente. Fernando ficou entregue a si próprio. 

Trabalhava com afinco, era cumpridor e pontual, nunca faltava. Na sua cabeça haviam questões que o assombravam uma e outra vez, uma e outra vez, uma e outra vez... "Para que sirvo? O que ando cá a fazer? Se morrer ninguém sentirá a minha falta.". 

Foi imbuído nestes pensamentos que Fernando decidiu que no dia em que fizesse 30 anos celebraria colocando fim à sua existência. 

Era hoje, 14 de novembro, Fernando ia para casa para celebrar como havia prometido a si próprio. 

O comboio parou. Ainda faltavam quatro paragens para o destino final. Fernando sentiu uma mão pousada no seu braço, piscou os olhos antes de virar a cabeça ao ouvir:

- Fernando? - questionou uma voz doce e confusa.

Fernando tinha a certeza que não era com ele que falavam. Nunca era, por isso encarou-a com os seus olhos verdes cheios de perplexidade e não conseguiu sequer soltar um som.

- Fernando? És tu! És mesmo tu. - a voz da rapariga parecia entusiasmada e Fernando sentia-se a ter uma experiência fora do corpo. 

- Sou eu, a Bruna. Lembraste de mim? Fomos colegas no liceu, no 10º ano, mas eu depois mudei de escola...

- Bruna? - interrompeu-a Fernando, quase em surdina. 

Lembrava-se. Claro que se lembrava. Como podia havê-la esquecido? Estava mais bonita que nunca. Sempre tivera um sorriso doce. 

- Sim, sou eu. Que surpresa encontrar-te aqui. Como estás? - questionou ela casualmente. 

Que poderia ele responder? Não podia admitir que ia a caminho de casa para colocar em prática o seu plano de suicídio. Em vez disso disse-lhe:

- Julguei que nunca mais te iria encontrar. 

- Foi pena eu ter mudado de escola. O meu pai arranjou um novo trabalho, tivemos de mudar de casa. Eu gostava tanto de ti... - admitiu ela enquanto sorria e um rubor cobria-lhe as faces.

Fernando estava em choque. Sentiu uma descarga no seu corpo. Nunca ninguém lhe havia dito que gostava dele. E não esperava que a pessoa que o fizesse fosse a rapariga mais bonita e simpática que pisava o planeta Terra.

Aos poucos o seu plano ia-se desvanecendo. Fernando sorria, parecia ter voltado à vida ainda antes de morrer. 

(Imagem aqui)

20
Ago18

A Teresa

C.S.

"Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida..." Estas eram as palavras que não conseguia tirar da cabeça desde os acontecimentos da noite anterior. Tinha a voz de Sérgio Godinho a repetir a frase em loop na sua cabeça e nunca gostara muito de o ouvir, apreciara muito mais o Rui Veloso ou o Palma, porém não eram eles que a visitavam nestas horas de angústia.  

 

"Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida..." Teresa perguntava-se, agora, se realmente estaria perante o primeiro dia do resto da sua vida ou se seria o seu primeiro dia enquanto fantasma, sombra, aparição... Ou outra coisa qualquer que lhe queiram chamar. Sim, porque a verdade é que Teresa sentia que tinha morrido na noite anterior. 

 

"Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida..." - Pois então que seja! Que seja, raios! 

Teresa já descera ao inferno mais do que uma vez e sabia que agora estava condenada, não haveria retorno. Nas últimas dez horas passara por sentimentos completamente opostos. Sentira-se feliz e aliviada por momentos, depois foi tomada pelo medo e pelo desespero  que a levaram a esgotar todo o seu stock de lágrimas. Chegada a esse ponto, foi quando Teresa começou a ouvir a música - "Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida..." - queria fugir, mas não sabia para onde. Não havia planeado nada daqueles acontecimentos e acontecera tudo tão rápido que ela ficara ali presa, sem saber o que poderia fazer a seguir. O minúsculo T0 cheirava-lhe a morte e sabia que havia sangue um pouco por todo o lado, talvez até em si. Sabia que se tentasse fugir seria imediatamente apanhada, assim como sabia que não poderia ficar fechada para sempre num cenário de um crime. Seria agora uma criminosa? Como pode alguém passar de vítima a criminosa numa questão de segundos?

 

"Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida..." Hoje seria, efetivamente, o primeiro dia, em três anos, que ninguém lhe chamaria puta. Talvez lhe chamassem assassina, mas não puta. Hoje não lhe diriam que não sabe fazer nada, porque afinal até soube espetar uma faca no pescoço dele. Ele que agora parecia um pedaço de carne descolorado. Como pôde ela temê-lo tanto e por tanto tempo?, perguntava-se. Quantas vezes rezara baixinho para que, depois do trabalho, ele apenas a insultasse e, quanto muito, se ficasse por umas chapadas. Isso aprendera a tolerar, mas quando ele decidia pontapeá-la o mundo abatia-se sobre si. Muitas vezes, tantas!, ele só parava quando ela perdia os sentidos. Teresa nunca pensou que conseguiria aguentar tanta dor, mas de alguma forma o seu corpo era mais resistente do que aparentava. 

 

Em quarenta e um anos Teresa fora maioritariamente infeliz. Com ele lembra-se de ter vivido uns meses de felicidade. Pura. Inocente. Havia, então, acreditado que poderia ter a família com que sempre sonhara. Talvez um ou dois filhos. Mas esses meses foram-se transformando. Esfumando. Até deles não restar nada. E Teresa foi engolida por um mundo de temor e dor constantes. 

 

"Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida..." Talvez seja. Farei a chamada. Marcarei o número. 112. Não custa nada. Hoje, pela primeira vez, pedirei ajuda. 

04-campanha_apav_noivas_01_0.jpg

(Imagem aqui)

23
Abr18

O Ricardo e a Rita

C.S.

Era hoje. O grande dia chegara.

Ricardo não queria fazer asneira.

Eram sete horas, o sol tinha nascido há pouco. Levava a passada larga e a respiração acelerada. Corria todos os dias 45 minutos, hábito que lhe ficara daqueles meses de dolorosa separação. Tinha começado a correr porque não sabia o que fazer sem ela.

São estranhas as linhas em que a vida se vai escrevendo, pois Ricardo só compreendeu a dimensão dos seus sentimentos por Rita no dia em que ela, lavada em lágrimas, o deixou. Quando a porta da sua casa se fechou Ricardo sentiu o seu coração despedaçar-se. Uma dor que nunca havia experimentado antes apoderou-se dele. Lancinante. Impiedosa. Estranha. Pela primeira vez Ricardo soube o que era sofrer por amor.

Ele sempre fora o centro das atenções. Os seus olhos azuis sempre foram cobiçados pelo sexo feminino. De sorriso doce e fácil, nunca teve dificuldades em arranjar namorada, por isso namorou muito. Desinteressadamente. Saltando de relação em relação, sem se prender. Foi a doce e recatada Rita que abalou o seu mundo. Ruiva, sardenta, de olhos verdes e demasiado grandes. Cruzaram-se no segundo ano da faculdade, quando ela se inscreveu numa disciplina extra ao seu currículo. Sentou-se ao lado de Ricardo sem nunca reparar nele. Era concentrada e tirava apontamentos sem parar. Ele não ouviu uma palavra do que o professor
disse naquela aula, mas sabe exatamente a roupa que ela tinha vestida naquele dia.
Rita não acedera facilmente às insistências de Ricardo para que saíssem juntos. Ao contrário dele, não estava habituada a receber muita atenção. Mas não conseguia ficar indiferente aqueles olhos azuis e um dia acedeu ao convite dele. Apaixonaram-se com extrema facilidade.

Namoraram catorze meses. Mas um dia, Rita descobriu que Ricardo, no jantar de fim de curso, demasiado bêbado, havia passado a noite a namoriscar com uma colega de turma. Confrontou-o. Gritou-lhe. Rita, que nunca perdia a sua serenidade, descontrolou-se. Chorou copiosamente e deixou-o.

O relógio apitou e trouxe-o ao presente. Embrenhado nas suas recordações e emoções Ricardo havia corrido mais que o habitual. Sentia-se cansado, mas feliz por ter conseguido reconquistar a sua Rita. Não fora fácil. Demorara meses, mas ela valera o esforço, a persistência e as noites mal dormidas em que ficara a arquitetar formas da surpreender.

Rita. A sua Rita. Tão bonita.

Hoje pedi-la-ia em casamento. Estava tudo planeado. Levá-la- ia ao Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa. Lá fariam um piquenique e Ricardo declarar-lhe-ia o seu amor. Entregaria a Rita o anel que comprara e dois bilhetes de avião com destino à cidade de sonho dela: Nova Iorque.

Rita. A sua Rita. Tão bonita. Todo o seu mundo.

 

(Este texto foi inspirado numa foto do João Farinha. Uma foto lindíssima, por sinal. O conto já andou lá pelo seu blog e hoje decidi trazê-lo aqui.)

06
Fev18

A Camila

C.S.

Fechou a porta de casa. Da casa que ainda era sua, mas que em breve deixaria de ser. Sabia que aquela manhã cinzenta de janeiro seria a última vez que estaria ali. 

Fechava a porta à casa e à vida que ela conteve. Encerrava naquele gesto não apenas uma moradia, mas também um casamento de quase sete anos. Sete anos. Tanta gente lhe havia dito que aquela era a barreira temporal que teria de ser superada... Não foi.  

A casa fechava-se, mas Camila sentia que se abria para o mundo. Ou seria o mundo que se abria para ela? Teria tempo de descobrir...

O seu casamento havido sido feliz nos primeiros cinco anos. Eram esses cinco anos que guardaria na memória. Não na mais imediata, porque não queria pensar nele com frequência. Queria atirá-lo para o passado que se revisita amiúde e que nos faz sorrir. 

Não guardaria o sexto ano. O não guardaria a dor que lhe causou. As lágrimas que verteu. As palavras que não lhe disse. 

Deixaria no passado a discussão que os levou a partir parte da loiça. Ficariam para trás as noites em que ele disse estar a trabalhar até tarde, quando na verdade estava num hotel de segunda com a estagiária. Esqueceria as promessas vãs que ele lhe fez e que não foi capaz de cumprir. 

Fechava a porta, mas carregava consigo o seu novo propósito. Rodou a chave pela última vez e virou-se, um raio de sol apareceu, como se iluminasse o seu novo caminho. E Camila passou a mão na barriga, que de dia para dia não parava de crescer. Era hora de partir, com o melhor que ele lhe podia ter deixado. 

(Imagem aqui)

12
Dez17

A Margarida

C.S.

Eram seis da manhã e era inverno. O despertador tocou alto e pontual. Margarida esticou o braço e desligou-o mecanicamente. Nunca lhe apetecia sair da cama, sobretudo no inverno. Mas hoje era um dia diferente e de um salto colocou-se em pé, arrastou-se energicamente para o duche, que tinha sempre a capacidade de a despertar, se bem que hoje ela não necessitava desse apoio suplementar. Como era contraditória a vida!

Na cozinha preparou uma deliciosas papas de aveia, pequeno-almoço que era habitual aos sábados de manhã e não às quintas-feiras, que era o presente dia da semana. Margarida estava animada, cantarolava sem reparar e sentia uma energia diferente a percorrer-lhe o corpo. 

Nunca imaginou que demitir-se e mandar tudo às urtigas a deixaria tão feliz. Ela que sempre fora uma trabalhadora dedicada e exemplar achou que a sua decisão a colocaria infeliz, pelo menos durante os dois primeiros dias. Mas ali estava ela, feliz da vida, com um sorriso de orelha a orelha. 

Era hora de empacotar. Tinha de colocar a sua vida em caixas. Não sabia bem por onde havia de começar, mas estava determinada em deixar grande parte do apartamento limpo ainda hoje. Mal podia esperar pela próxima segunda-feira, aí sim, a aventura iria mesmo começar. 

Margarida decidiu começar pelo escritório, afinal tinha deixado o seu emprego, que em tempos fora de sonho, portanto teria muitos papéis para rasgar e reciclar.

Passada uma hora deu de caras com uma caixa de cartão rígido, tamanho médio, cinzenta com pequenas florinhas amarelas. Margarida sentiu o seu coração amolecer, as pernas tremeram-lhe ligeiramente e um sorriso doce desenhou-se na sua cara, enquanto pegava na caixinha com todo o cuidado e amor. Pousou-a no tapete e, de joelhos, deu início a um regresso ao seu passado, aos seus tempos de menina adolescente e encontrou por lá tudo aquilo de que se lembrava e um pouco mais. Sentiu-se grata pelas pessoas que habitaram o seu passado, mesmo aquelas que já não via. Sabia que se havia tornado na adulta que era devido às vivências que guardou na sua caixa. Tantas memórias! Mas não as podia levar com ela para a sua nova vida, por isso ligou à sua melhor amiga. Ninguém melhor que ela para guardar aquela relíquia. Combinaram encontrar-se dentro de dois dias para um lanche demorado. Margarida sabia que ela não ia reagir bem à sua decisão, mas encolheu os ombros e bebericou mais um pouco do chá que estava pousado na sua secretária. 

Senti-se viva, genuinamente feliz e nada a poderia deter. Pensou em Enzo, o amor da sua vida. Italiano. Haviam-se conhecido uns meses antes, numa viagem de um mês que Margarida fez sozinha por Itália. Já não imaginava a sua vida sem ele e por isso arrumava-a agora para se mudar para Florença. 

Margarida pensava nos seus planos quando o seu smartphone tocou. Eram 10:30h. Mais uma hora em Itália. Enzo. Sorriu.

E nada na sua vida a havia preparado para a dor que aquela chamada lhe causaria. 

 

(Imagem aqui

29
Nov17

A Francisca

C.S.

As ruas são a sua casa. O chão frio a sua cama. A heroína a sua companheira inseparável. 

Há 20 anos atrás era outra. Logicamente mais nova. Ligeiramente mais feliz. 

Francisca nasceu em berço de ouro, que é como quem diz que teve a sorte de nascer no seio de uma família com posses financeiras, que nunca deixou que lhe faltasse nada, nem mesmo a Vespa que ela exigiu aos 14 anos, numa birra descomunal que marcou o dia em que soube que os pais se iriam divorciar. 

Mimada por todos, sempre teve a capacidade de virar as atenções para si, mesmo quando eram os outros os que mais sofriam. 

Mas a vida gosta de figuras de estilo, sobretudo da ironia e, quando a Francisca lutava para concluir a sua licenciatura, colocou-lhe no caminho o Tozé. Um namorado agressivo que rapidamente lhe dominou o espírito de menina mimada e a converteu numa sombra sua. 

A Francisca que sempre tinha enfrentado os pais e exigido aquilo que julgava ser seu por direito, estava agora à mercê dos caprichos do Tozé, que era viciado em jogos de sorte e azar e que tratou, desde cedo, de iniciá-la nos meandros do mundo da droga, local que Francisca jamais conseguiria abandonar. 

Aos 28 anos deu à luz pela primeira vez, num beco escuro, uma menina da qual não consegue recordar o pequenito rosto. Nasceu morta e Francisca deixou-a embrulhada em trapos velhos junto a um contentor de lixo. Nesse dia morreu o que lhe restava de humanidade e a partir desse momento toda a sua vida foi um contínuo declínio.

Prostitui-se para conseguir o dinheiro que os pais deixaram de lhe dar. E a última vez que se recorda de ver os progenitores foi há seis anos atrás, tinha Francisca 34 e procurou-os para lhes pedir ajuda, assustada porque lhe tinham dito que tinha HIV. Mas ao segundo dia de reabilitação agrediu dois enfermeiros e fugiu, deixando definitivamente a alçada paternal que nunca foi suficiente para a segurar. 

Faz hoje quarenta anos, a Francisca, e estará morta antes das 22h, hora em que nasceu. Será brutalmente assassinada por o irmão mais novo do Tozé, após a violar uma e outra vez. 

 

20
Nov17

A Dona Celeste

C.S.

A Dona Celeste passa os dias à janela. Em terra de pescadores ela tem vista privilegiada para a azáfama da vila. 

Tem setenta e quatro anos e é hipocondríaca, mas não sabe. Às vizinhas diz que está sempre pior, que já não passa cá outro Natal. Ao final da tarde entretém-se a ver os homens a preparar os barcos para mais uma lide noturna e madruga todos os dias para os ver chegar com o peixe. Entre uma atividade e outra vai espreitando os namoricos dos mais novos, vai controlando a quantidade de vezes que as vizinhas saem de casa e vai vendo quem entra e sai do café da esquina. Sabe de cor os que não resistem ao chamamento do álcool, os que só vão comprar tabaco e os que não se perdem em vícios. 

Lava a roupa à sexta-feira, na máquina que o filho lhe comprou no aniversário passado, mas tem sempre algum pano para esfregar no tanque do seu quintalinho.

Às terças-feiras, de quinze em quinze dias, vai sempre visitar a sua médica de família, que lhe diz, de todas as vezes, que ela tem uma saúde de ferro. "Parece que gosta de gozar com a desgraça alheia" - pensa sempre a dona Celeste quando deixa o gabinete da médica - "Um dia hei de morrer e há de arrepender-se dessas palavras", completa o pensamento. 

Há muitos anos que é viúva. O marido foi engolido pelo mar quando Celeste tinha trinta anos e o seu filho cinco. Teve de criá-lo sozinha. Dedicou-se à costura, oficio que a mãe lhe ensinou quando Celeste não querida saber de agulhas, mas sim de namorados. 

Nunca teve uma vida feliz, mas sim conformada. Nunca saiu do seu distrito. O mundo que conhece é o da sua vila. A vida foi passando num piscar de olhos e Celeste nunca teve grandes ambições, mesmo para o seu filho. Nunca lhe incutiu um espírito aventureiro e não o deixou ir estudar para fora da sua capital de distrito. Conseguiu-o fazendo alguma chantagem emocional com o moço, que sempre foi bastante dependente da mãe. Mas pagou-lhe os estudos, com esforço e horas de trabalho extra viu o filho formar-se em economia. 

Hoje, ao jantar, Dona Celeste irá receber uma notícia que aquecerá o seu coração. Vai descobrir a alegria da palavra avó. 

IMG_20171118_085158_695.jpg

 

 

 

 

 

16
Out17

O Dr. Guilherme

C.S.

Naquele início tarde, de um outono demasiado quente, Guilherme não imaginava o que lhe iria acontecer. Vinha de um agradável almoço com a sua filha mais velha, que iria casar-se no final do ano. Estava entusiasmado pela sua menina, que na verdade já era uma mulher deslumbrante e bem sucedida. Iria casar-se um ano depois de ter terminado o seu internato em pediatria. Um sonho tornado realidade. Desde muito cedo que a sua Lara quis seguir-lhe as pisadas no mundo da medicina, facto que sempre o encheu de orgulho.

 

Guilherme entrou no metro em passo apressado, verificando a sua agenda no smartphone, pois ainda o esperavam no consultório para cinco consultas e uma delas era com a sua paciente, grávida de gémeos, cuja tensão arterial o preocupavam.

 

Subitamente uma dor no peito. Lancinante. Soube de imediato do que se tratava e enquanto tentava racionalizar o que lhe estava a acontecer, o seu corpo começou a ceder, não conseguiu avançar muito mais, a dor cada vez maior e mais real. O seu corpo de 1,86m caiu ao chão. Os olhos fixos no teto daquela paragem de metro que fazia parte do seu dia-a-dia.

 

Pensou no casamento da filha e na dor que lhe causaria se não a pudesse acompanhar ao altar. Pensou no amor da sua vida, a mulher com quem partilhava a sua vida há quase quarenta anos. Queria tanto puder vê-la uma última vez, sentir o seu cheiro e acariciar os seus cabelos. Pensou no seu Tiago a viver sozinho pela primeira vez e logo num país estrangeiro. Queria visitá-lo de surpresa no início de dezembro, mas talvez não o voltasse a ver.

 

De repente sente umas mãos a comprimir-lhe o peito, uma e outra vez, uma e outra vez, ritmadas, enquanto ouve uma voz desesperada que lhe pede para se aguentar. Guilherme gostava de poder acalmar aqueles olhos verdes que se debruçam sobre ele e que lhe parecem estranhamente familiares. Tão bonitos. Tão puros. Tão tristes.

 

Antes de desmaiar compreende... Lamentavelmente, compreende que é a sua filha, a sua pequena Lara que no chão do metro, lavada lágrimas, faz os impossíveis para o agarrar à vida. Desculpa, Lara.

IMG_2874.jpg

(A magnífica foto que inspirou este conto é da autoria do João Freitas Farinha. É uma obra de arte, não é? Estes tons de preto e branco fascinam-me. Obrigada, João.)

 

03
Out17

O Bernardo

C.S.

Sou o Bernardo e sinto-me desconfortável quando olham diretamente para mim. Nunca pensei ter de recorrer a um psicólogo, mas aqui estou. Bastante cético quanto ao bem que isto me possa fazer... Na verdade, venho mais pelas pessoas que me pediram para o fazer do que por mim. 

 

Olho o relógio. São 16:30. A esta hora deveria estar a preparar-me para deixar o escritório e ir buscar o meu filho à escola. Baixo a cabeça e um vazio enorme apodera-se de mim. As mãos tremem-me. Tenho 43 anos e as mãos tremem-me e eu não compreendo nada do que se passa à minha volta.

 

Sei que a esta hora a minha mulher está em casa. Provavelmente a sentir-se perdida, como eu, mas não o posso garantir. Há meses que praticamente não falamos. Somos dois fantasmas presos dentro da nossa própria casa. Uma moradia. Virada a sul, com três quartos, grandes janelas e uma piscina. Tal como ela sempre quis.

 

Tudo me parece distante agora. Comprámos aquela casa há 10 anos, quando fui promovido, dois anos antes do José nascer e, no entanto, aquela casa e os sonhos de então parecem ter pertencido a outras pessoas que não nós. 

 

Envelheci imenso nos últimos meses. A Paula também. Deixei o ginásio, perdi peso, clientes e a vontade de viver. Ainda gosto da Paula, mas não sabemos como nos encarar. Não sabemos como conviver. Há dúvidas e rancor no ar. Há meses que durmo no sofá do escritório, não que ela me tenha pedido, mas foi algo que senti que devia fazer. 

 

A dor consome-nos. Os dias passam e parecem sempre iguais, ainda que uns dias fiquemos deitados até à hora de almoço. Não por sono. Não por preguiça. Simplesmente porque não sabemos o que fazer quando colocarmos os pés no chão. 

 

Sei que a Paula deverá estar a viver sentimentos idênticos aos meus. Sei que também ela se consome, mas não encontramos forma de nos olhar e tentar compreender. Não há nada que possamos compreender neste enorme absurdo que se tornou a nossa vida. 

 

Tenho 43 anos e tive um filho. Houve um tempo em que tive um filho. José. 8 anos. Terá para sempre oito anos o meu filho. Passaram-se meses desde que o abracei pela última vez. Era o miúdo mais bem disposto que conheci até hoje. Adorava animais, o Benfica e o espaço, sabia mais que eu sobre planetas e constelações. Sonhava muito, mas reparava no mundo à sua volta. 

 

Um dia acordei pai e a Paula acordou mãe. Uma manhã igual a tantas outras. Fomos trabalhar e ele foi para a escola. Ao fim do dia eu e a Paula já não éramos pais. Éramos uma sombra do que fôramos. 

(Imagem aqui

E nada disto faz sentido. O mundo avança e não deveria avançar. Não sem ele. Não sem justiça. 

 

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