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há mar em mim

28
Abr17

E vocês? Já jogaram ao Preço Certo?

C.S.

Ontem, depois do trabalho, tive de passar no Aki para comprar uma nova fechadura para caixa do correio porque, vá-se lá saber porquê, a que eu tinha ficou-me agarrada à chave na última vez que fui espreitar se tinha chegado alguma continha para pagar (é só o que eu recebo, enfim...).

Das cinco caixas existentes apenas uma estava em funcionamento e a fila ia-se acumulando, (parecia aquele jogo em que temos de rebentar as bolinhas coloridas, sempre com as cores correspondentes, e precisamos desesperadamente de uma bolinha amarela, mas só nos calham todas as outras com cores do arco-íris). Quando já estava perto de ser a minha vez, faltando apenas que dois casais efetuassem o pagamento, comecei a prestar atenção ao que se passava e vi e ouvi que a cada artigo registado o primeiro casal ia dizendo: isso são 2,95€, não é? Isso agora anda à volta dos 15,35€, certo? E assim sucessivamente. O rapaz da caixa ia acenando afirmativamente enquanto fazia o seu trabalho de forma paciente. Despachados estes, foi a vez do casal que me separava da porta de saída, que eu desejava muito alcançar, pois estava cansada e queria muito ir para casa.

Adivinhem o que aconteceu? A sério! Juro!

Não é que este casal fez exatamente a mesma coisa?! Com a agravante da conta deles ser bem mais extensa. E o rapaz da caixa olhava para todos os lados em busca de auxilio e nada, lá teve ele que continuar a desempenhar o papel de Fernando Mendes à força. E eu a pensar: querem ver que isto é um especial Preço Certo num Aki do Algarve?! Onde é que eu me vim meter?! Mas não. Eram apenas estes dois casais que gostam certamente de sentir a adrenalina em níveis elevados e decidiram tentar a sua sorte numa louca tarde de compras em produtos de casa de banho e lâmpadas.

(Imagem aqui)

10
Abr17

Caminhos que se cruzam

C.S.

Fui passar o fim de semana ao Alentejo, o marido fez anos, esteve de folga e fomos festejar em família. No caminho entre o Algarve e o Alentejo necessitámos de abastecer, decidimos que o faríamos em Ourique, por acaso, num sítio onde não temos o hábito de parar.

Chagados à dita bomba de gasolina deparámo-nos logo com um rapaz, sozinho, roupa com sinais de bastante uso, alto, loiro, de olhos claros e sorriso aberto, que segurava um bocado de cartão onde tinha escrito Beja e Évora. Eu e o A. entreolhámo-nos e não dissemos nada.

O A. abasteceu e quando ia pagar perguntei-lhe: "damos-lhe boleia?". Resposta: "estava a pensar o mesmo". Mas nunca o tínhamos feito, nem um, nem outro. Quer dizer, lembro-me de ser miúda e o meu pai dar boleia algumas vezes, justificando que também já ele havida precisado e que sempre o haviam ajudado, mas eu e o A. ainda nunca tínhamos dado boleia a um desconhecido, claramente estrangeiro e, verdade seja dita, nos dias que correm ficamos sempre de pé atrás.

Mas lá nos decidimos a levar o rapaz, que ficou extremamente contente por o retirarmos do sol bastante quente do Alentejo e nos agradeceu várias vezes. Era alemão, tinha 23 anos e andava há uma semana a viajar pela Europa à boleia. Confessou-nos que na Europa se sente bastante seguro a fazê-lo e que no próximo ano ambiciona chegar à Nova Zelândia da mesma forma. É estudante de geografia e o mundo apaixona-o. Eu, pessoalmente, identifiquei-me muito com o seu entusiasmo por o desconhecido e admirei-lhe imenso o espírito de aventura. Disse-me que já esteve na Tailândia e na Malásia, entre outros países, destinos que fazem parte da minha lista de sonhos por realizar.

(Imagem aqui)

 

Foi uma viagem até Évora que passou rapidamente, eu e o A. a sonhar com destinos exóticos e o nosso novo amigo a extasiar-se com a beleza das paisagens alentejanas, tão bonitas e floridas nesta altura do ano. Para ele o Alentejo apresentou-se-lhe como um meio rural ainda em bruto e deixou-se maravilhar pelas ovelhas, vacas e cavalos que haviam pelos campos e que a ele lhes pareciam gozar de liberdade total. Confessou-nos ainda que pensa que o Alentejo tem semelhanças com terras africanas e disse-nos que quando for mais velho quer comprar um pedaço de terra em Portugal, mais que não seja para ter uma desculpa para voltar em todas as Primaveras.

(Imagem aqui)

Fiquei muito feliz por o meu Alentejo lhe agradar assim tanto, reconheço-lhe a beleza, mas é sempre bom ver o entusiasmo que pode causar em alguém que não o conhece desde sempre.

Espero que o nosso novo amigo mantenha o espírito aventureiro, o bom gosto para filmes e música  e que guarde boas memórias de Portugal.

Nós vamos sonhando com as viagens que faremos, as pessoas com que nos iremos cruzar e as histórias que ficarão para contar, que para mim estes três aspetos são dos mais importantes que a vida me pode proporcionar.

 

21
Fev17

Dona Clotilde

C.S.

A Dona Clotilde não usa óculos ainda, apesar de já ver mal ao perto. Passa os dias à janela, rega as suas flores, que vivem naquela casa há tanto tempo quanto ela, e vê quem passa. Conhece todos os seus vizinhos, sabe dos amores e desamores, sabe dos pais que sofrem por o ninho ter ficado vazio e sabe dos filhos que voltaram da cidade grande porque não conseguiram realizar os seus ambiciosos sonhos. Também sabe que a rapariguinha que vive três porta abaixo da sua está grávida, apesar dos pais e ela o tentarem disfarçar.

A Dona Clotilde vive com o Xavier, o seu gato de 12 anos, que já não tem vontade de saltar de beiral em beiral e passa os dias deitado no tapete da sala.

A Dona Clotilde reformou-se há 10 anos e não sente saudades do tempo em que trabalhava nas finanças. Agora pode estar mais tempo à janela. Vai à farmácia todas as quartas-feiras e visita o seu médico de família uma vez por mês, mesmo que não tenha nenhuma queixa. Gosta dele como se fosse seu filho e já fez questão de lho dizer.

A Dona Clotilde nunca casou, nunca engravidou e essa é a grande mágoa da sua vida, apesar de o esconder das suas vizinhas, da mesma idade que a sua. Faz questão de lhes transmitir a ideia de que o Xavier e aquela casa virada a sul são tudo aquilo que sempre precisou.

A Dona Clotilde, que sempre foi feia e sempre pareceu mais velha do que era na realidade, teve dois namoricos quando estava na flor da idade, mas apenas lhe serviram para não aparecer sozinha nos bailes da aldeia. Nunca tirou a carta e só sai da sua casa na última quinzena de julho para ir visitar a irmã e os sobrinhos. Esta visita anual basta-lhe.

Quando fez 50 anos achou que merecia uma prenda, comprou um bilhete de avião para ela e para a sua irmã, para que pudesse ir ver, ao vivo e a cores, a cidade que todos diziam ser do amor e onde estava a tal torre de ferro. Foram. A irmã veio muito feliz, adorou voltar àquela cidade onde tinha estado há uns 15 anos atrás com a sua família, mas a Dona Clotilde voltou com uma mágoa. Disse à irmã que a viagem tinha sido um desperdício de dinheiro e que nunca mais voltaria a fazer uma loucura daquelas.

A Dona Clotilde foi a Paris e compreendeu que perdeu o mundo. Aos 50 anos achou que era tarde demais para si e fechou-se ainda mais, abrindo só a janela da sua casa para tomar conta das ocorrências da sua rua. Dizia a si mesma que isso lhe bastava e que a torre Eiffel nem era assim tão bonita como a pintavam.

 (Imagem aqui)

 

16
Fev17

Cenas tristes do quotidiano

C.S.

Todos os dias, para poder ir trabalhar, passo na mesma estrada. É considerada uma das piores e mais problemáticas do país (iupi!!!) e eu não tenho alternativa. Ou melhor, tenho, mas custa os olhos da cara. E eu prezo os meus olhos.

E todos os dias são mais de 100km para ir trabalhar. Ao preço a que estão os combustíveis todos compreenderão a minha dor. Mas enfim. Bola para a frente... Porque para a frente é que é o caminho e eu nunca posso chegar atrasada, não me perdoariam.

 

Nesta estrada movimentada e caótica existe um troço que costuma estar povoado, não só de carros, mas também de senhoras, entre três a quatro em menos de 1km.

Eu sou super distraída no que toca a alguns assuntos e só passada uma dúzia de vezes de fazer o bendito percurso é que comecei a ver que por ali haviam sempre senhoras. Achei, nos primeiros dias, que estariam à espera de alguém e depois achei que estavam a pedir boleia e depois fez-se luz, elas até têm cadeiras para esperarem sentadas e estão sempre de mini saias ou de mini vestidos. Mesmo quando o termómetro do meu carro marca -1ºC.

 

Já perceberam? Já perceberam o que fazem estas senhoras para ganhar a vida? Caramba, vocês são mesmo mais atentos que eu.

Mas agora, chegados a este ponto, estão vocês a pensar: "C.S., demoraste tanto tempo a perceber?". Sim, demorei, sou um bocado despistada, o que é que querem?!

E agora pensam: "Mas porque está ela a divagar neste assunto?!". Calma, explico já.

Porque num destes dias, lá ia eu no meu difícil percurso, quando reparei que por lá se encontrava um carro (familiar) "a fazer negócio" e tinha um daqueles autocolantes que dizem: "Bebé a bordo". E eu sustive a respiração. Abanei a cabeça para não pensar no assunto. Mas não consegui não pensar no bebé que normalmente anda naquele carro e que é agarrado e beijado por aquele senhor que estava interessado numa senhora que ganha a vida à beira da estrada a prostituir-se.

 

Não sei o que vocês acham, mas eu acho triste. Acho que todos estes protagonistas da vida real tem uma história triste, cheia de um nevoeiro denso, daqueles que demora dias e dias e dias a desaparecer.

 

15
Fev17

A Maria

C.S.

A Maria não terá mais que quatorze anos, mas tem muita pressa em crescer. Sempre foi muito carinhosa. Sempre brincou com bonecas, até ter dez anos, em todo o lado. Não saía de casa sem, pelo menos, uma boneca em cada mão. Entre os dez e os doze passou a brincar menos, mas quando o fazia ainda adorava, apesar de desmentir quem quer que fosse que tivesse a ousadia de lhe dizer tal disparate.

A partir dos doze anos a Maria perdeu o sorriso de menina, fechou a sete chaves o carinho que oferecia despreocupadamente aos pais, até então, e passou a usá-lo só em dias especiais e dentro de quatro paredes, claro está.

A Maria tinha um desejo louco de crescer, de interessar-se muito por roupas e maquilhagens, como as suas amigas. Queria muito impressioná-las com as suas unhas coloridas e as sapatilhas de marca.

A Maria queria sempre mais qualquer coisa e esses desejos nunca estavam verdadeiramente satisfeitos, ela própria já não se reconhecia, mas nunca vacilava. Nunca diria à mãe que tem saudades dos tempos em que pintavam e cortavam juntas folhas de papel colorido que serviam para criar monstrinhos divertidos, feitos à medida da sua imaginação. Jamais admitiria ao pai que sentia muita falta das histórias que ele lhe inventava antes de adormecer.

A Maria andava mais triste, mais fechada e mais perdida, no entanto, repetia a si mesma que isso fazia parte do crescimento, que as suas amigas tratavam os pais com a mesma indiferença e que só assim, com atitudes de meninas crescidas, poderia impressionar o Pedro. Mal sabia a Maria que o Pedro só pensava em ser jogador de futebol e que o interesse pelas raparigas só despertaria nele dois anos mais tarde.

A Maria baixou as notas e conseguiu que os professores falassem dela mais do que nunca, mas pelos piores motivos.

A doce Maria deu lugar à distante Maria. Distante da família, que a cada dia parecia perder mais uma batalha, distante dos estudos, que sempre a interessaram, e distante das amigas, que à sua maneira estavam a passar pelas mesmas angustias.

Mas estas meninas, iguais a tantas Marias, querem crescer demasiado depressa, sedentas de alcançar algo que a sua maturidade ainda não é capaz de compreender a 100%. Estas meninas tropeçam e poucas têm uns pais como os da Maria, sempre presentes, sempre atentos, sempre unidos, para a ajudar a levantar.

 Imagem daqui.

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